Rui Malheiro, jornalista português, sobre Paulo Sousa: “O romântico que abraça a Nação Rubro-Negra”

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(Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo)

Confira a coluna escrita pelo jornalista português Rui Malheiro ao jornal Record de Portugal sobre seu compatriota, o novo treinador do Flamengo, Paulo Sousa.

Malheiro foi o primeiro jornalista a entrevistar o técnico Rubro-Negro, pela RTP TV. Fez algumas participações em programas esportivos no Brasil e demonstrou enorme conhecimento sobre o Flamengo e seu novo treinador.

 

* Por Rui Malheiro

O romântico que abraça a Nação Rubro-Negra

Nem o sebastiânico Jorge Jesus, nem Carlos Carvalhal. Paulo Sousa, aos 51 anos, não hesitou em abandonar, rodeado de controvérsia, o comando da seleção polaca para abraçar o maior desafio da sua carreira: treinar o Flamengo. Tremendamente perspicaz na comunicação, o que já lhe garantiu a conquista de uma boa fatia da exigente e numerosa torcida, terá agora de passar das palavras aos atos. Ganhar, impondo o seu futebol românico e cativante, é uma tarefa tão excitante como hercúlea, sabendo que terá que conviver com o fantasma multivencedor do (ainda) desempregado JJ.

Aos 51 anos, Paulo Sousa assume o maior desafio da sua carreira de treinador ao trocar a seleção da Polónia pelo Flamengo. Protagonista de um trajeto itinerante, bem atestado pela passagem por 9 países e 3 continentes em 13 anos, conheceu o período mais alto, após um arranque coriáceo no Championship inglês, com a sagaz perceção que seria a conquista de títulos e troféus, além do fulgor na condição de underdog nas competições europeias, a levá-lo aos maiores relvados do futebol europeu, que pisou com superlativa classe, bem timbrada num bicampeonato europeu consecutivo por Juventus e por Borussia Dortmund, enquanto futebolista.

O trajeto ascensional que delineou levou-o a conquistar troféus na Hungria, e a ser campeão em Israel e na Suíça, a que juntou presenças honrosas na Liga Europa e na Champions, o que lhe abriu, como anteviu quatro anos antes, a ambicionada porta da Serie A, onde orientou, durante dois exercícios, a Fiorentina. Uma experiência que o colocou nas cogitações de Roma e de Juventus, mas que o levaria a tomar uma má decisão no capítulo desportivo: a de rumar, com um contrato milionário para si e para a sua equipa técnica, aos chineses do Tianjin Quanjian. Uma experiência fracassada, num clube que já está extinto, e que acabou por constituir uma marcha-atrás no seu trajeto. Não só porque a porta de reentrada na Europa foi um Bordéus em crise, como a que se seguiu foi a da Seleção da Polónia, em que procurou romper com um passado de jogo expectante para assumir protagonismo com bola. Só que, com pouquíssimo tempo de trabalho, os polacos quedaram-se pela primeira fase do Euro’2020, e não afiançaram o passaporte direto – o que seria difícil num grupo em que se digladiaram com a Inglaterra – para o Mundial’2022, vendo-se obrigados a disputar o playoff.

Só que o apelo do Flamengo, mesmo percebendo que não era nem primeira nem segunda escolha, cativou-o, pela sede de escrever história e conquistar troféus, expressões que reverberou na entrevista exclusiva que deu à RTP, e que se revelou tremendamente impactante no Brasil, depois de ter definido o popular Mengão como “o melhor clube do Mundo”. Para trás, mais uma saída controversa de um projeto, independentemente de toda a legitimidade de o fazer ao pagar a cláusula de rescisão, o que lhe valeu o epíteto de “traidor”, além de críticas duríssimas de Boniek, o grande responsável pela sua contratação, e de Lewandowski, com quem criara uma relação muito próxima, inspirada na ligação entre Phil Jackson e Michael Jordan nos Chicago Bulls.

Na sua apresentação oficial como treinador do Flamengo, Paulo Sousa foi extremamente perspicaz a replicar às numerosas questões da incompassiva imprensa brasileira, nunca renunciando a piscar o olho ao enamoramento da extravasante nação rubro-negra, o que começou a fazer ainda em Portugal. Um discurso muitíssimo bem concebido, em que foi percetível um vigoroso trabalho de casa, a evidenciar uma capacidade de comunicação, uma destreza na explanação da sua ideia de jogo e na exposição de questões táticas, e um conhecimento futebolístico, até da própria realidade do Flamengo, incomparavelmente superiores aos de Renato Gaúcho, Rogério Ceni e Domènec Torrent, os seus predecessores, que assumiram a hercúlea tarefa de dar continuidade ao trabalho do multicampeão Jorge Jesus. E que, apesar do título brasileiro conquistado por Ceni em 2020, bem mais por inabilidade dos rivais do que por virtude própria, malograram de forma contundente. Sempre sem pestanejar e sem fugir a assuntos mais melindrosos, Paulo Sousa não se exibiu atemorizado com o fantasma de JJ, sobredimensionado após a longa novela de um namoro que não redundou em segundo casamento, e pelo facto de ser, neste momento, um treinador livre, nem com a pressão de uma massa adepta a quem não basta apenas ganhar, definindo-a como natural e necessária pela dimensão colossal do clube.

O viseense não hesitou em definir o plantel que tem à sua disposição como um dos melhores – se não mesmo o melhor – da América do Sul, mas que isso não é sinónimo de conquista de títulos, como se percebeu no reinado de Renato Gaúcho, dando a entender que na primeira reunião que teve com os jogadores mostrou-lhes que o caminho não é o do acomodamento. Por isso, expôs que irá promover uma competição interna mais feroz, não abdicando do reforço da equipa com jogadores que serão mais-valias, e que com ele não existirão lugares fixos e hierarquias, em mais um sinal para dentro que o adormecimento pode levar à perda da carruagem.

Estruturalmente, não negou a sua predileção pela utilização – o que não significará que seja a única opção – do 3x4x3 em momento ofensivo, recordando que o papel de terceiro defesa tanto poderá ser realizado por um lateral ou pelo recuar de um médio-defensivo, o que lhe permitirá defender mais próximo de um 4x4x2, ao encontro de uma multiestrutura que tanto aprecia.

O que também foi uma ponte para negar a incompatibilidade entre Gabigol e Pedro, avançado de enorme qualidade e com uma impressionante qualidade na definição através do remate, muitas vezes preterido pelos seus antecessores, adindo a possibilidade do desconcertante Bruno Henrique, nem sempre consistente no capítulo exibicional, formar com eles um power-trio ofensivo. O que poderá implicar que o subversivo uruguaio De Arrascaeta, o melhor jogador do atual Mengão, venha a ser convertido ao papel de médio-centro-ofensivo, o que o obrigará a ganhar outros predicados no capítulo físico e na reação à perda, para congregar à estupenda capacidade de condução e de criação de oportunidades de golo através de passes de rutura e cruzamentos (em bola corrida e em bola parada). Isto porque Paulo Sousa arrogou que irá exigir muito mais dos dois médios-centro (um mais defensivo, outro mais ofensivo), já que reprovou a mobilidade precária que observou nos jogos do exercício anterior, uma crítica que caiu no goto dos torcedores.

Num exercício que terá a mesma densidade competitiva dos precedentes, mas que encerrará um mês mais cedo, em virtude da realização do Mundial’2022, Paulo Sousa tem em mãos uma tarefa tão estimulante como encorpada. Conquistar a Supercopa brasileira, que será disputada a 20 de fevereiro ante o campeão Atlético Mineiro, é o (primeiro) passo chave para transpor as palavras bem medidas em atos que lhe permitirão voltar a conquistar troféus e títulos. O que não acontece desde que foi campeão suíço pelo Basileia em 2014/15.

Um aspecto que será absolutamente decisivo para que veja reaberta a porta dos campeonatos europeus de maior dimensão, por onde já passou, mas onde seria difícil retornar se se mantivesse como selecionador polaco. Ainda mais para emblemas que lhe possibilitem lutar pela conquista dos títulos que granjeou como futebolista, pois, como referiu, no verão de 2015, numa entrevista exclusiva ao Record, é essa a sua meta. Por isso, o Campeonato Estadual, que arranca a 19 de janeiro, deverá ser uma montra para lançar e testar jovens talentos, encabeçados pelos médios-centro Daniel Cabral e João Gomes, e pelos versáteis Matheus França, enorme promessa da cantera do ninho do Urubu, e Lázaro, unidades ofensivas de grande mobilidade, além dos laterais Wesley, Ramon – que surgiu recentemente na cogitações do Benfica – e Marcos Paulo, ao mesmo tempo que servirá, nos jogos de grau de dificuldade mais elevado, para realizar pré-época em competição da equipa principal, não abdicando do apuramento para a fase final e consequente conquista do troféu.

Mas sobretudo com a Supercopa, e os arranques da Libertadores, que começará para o Flamengo na primeira semana de abril, e do Brasileirão, que terá o seu exórdio a 10 de abril, em ponto de mira. Porque, a partir daí, jogar-se-á bem mais do que se treina. E o período até ao final de março será determinante para a assimilação por parte dos jogadores de um modelo de jogo exigente, que privilegia o sentido estético de um futebol romântico suportado pelo protagonismo com bola no meio-campo ofensivo em todos os jogos, perscrutando tanto o jogo interior como exterior para chegar com qualidade a zonas de finalização. Contudo, sem abdicar da pressão (média-)alta e da reação feérica à perda, além da sagacidade tática de perceber o que é que o jogo pede.

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