“O Independiente del Valle de Miguél Ángel Ramírez”, por Joza Novalis

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Confira a análise espetacular de Joza Novalis, colaborador do Ninho da Nação, sobre o adversário do Flamengo pela terceira rodada da Copa Libertadores: Independiente del Valle, às 21h.

Flamengo volta enfrentar uma das equipes que mais respeitou nos últimos tempos, o Independiente del Valle do “El Mister” Ramírez. E dizer que tal equipe pertence a Ramírez vem do fato de que se trata de uma equipe de autor. Uma autoria construída com um trabalho impressionante, de atenção minuciosa a detalhes, pautado na coragem, na busca constante do protagonismo e na elegância de todos os gestos. Duelo será também uma tratativa em prol da beleza no futebol. E, de quebra, poderá definir aquela equipe que ostentará a liderança isolada do Grupo A da Libertadores de América.

O Del Valle vem com uma invencibilidade de 12 partidas; a última derrota foi para o Deportivo Olmedo (1×2) pelo Equatoriano, embate que ocorreu duas semanas após a derrota sofrida ao Flamengo pela Recopa, e ocasião na qual apenas um time alternativo estava em campo. Chama a atenção o fato de que nessas partidas foram anotados 32 gols enquanto a defesa sofreu 15. Porém, tocaremos neste assunto mais à frente. Precisamos falar sobre a forma como joga o Del Valle, explicitar ações mais contundentes e as possíveis brechas pode onde o jogo rubro-negro passear.

E debater sobre o conjunto equatoriano é adentrar no chamado jogo de posição; algo aparentemente caro ao Flamengo atual, mas que poderá se tornar um grande barato com a sequência do trabalho do Domenèc. Primeiro ponto a destacar, no caso, é que para a eficácia do modelo, o técnico precisa conhecer profundamente cada um dos seus jogadores. Precisa entender a forma como ele se desloca em campo para atacar, ocupar e abandonar os espaços; também como ele faz a leitura dos acontecimentos do jogo em cada posição que frequenta dentro de campo durante a partida. Daí, inclusive, a dificuldade de entender certas escolhas do treinador; afinal, o que poucos consideram é que o atleta muitas vezes demonstra uma personalidade futebolística nos treinos e outra completamente diferente nos jogos. Para um técnico novo em um clube não é difícil que ele demore a perceber que certo atleta que o encanta nos treinamentos é o mesmo que vai refugar na maioria das vezes, dentro de campo. E o grau elevado desse encantamento pode levar o técnico a teimar e insistir com o jogador, uma vez que, mesmo que ele vá mal como extremo, consegue recompor e entrar na diagonal de forma brilhante, “é o que ‘esse cara’ faz nos treinos, por certo é o que deverá fazer a qualquer momento, no jogo”. Então, neste quesito, amigos, no do conhecimento sobre os atletas, Domenèc Torrent está na fase de amamentação, enquanto Ramírez é um velho gagá que já caminha de bengala.

Ramírez chega ao Del Valle em 2018 para inicialmente assumir o comando do Sub-19 e refinar um já consistente projeto de cantera com as suas sugestões. No ano seguinte, assume a equipe principal, após a saída de Ismael Rescalvo. A partir de então, inicia um processo de adaptação de jogadores veteranos às suas ideias (exercícios em várias etapas que consistiam inclusive na adequação dos movimentos do corpo à prática do passe e ao despiste de marcação e, para alguns deles, como “Pelle” Pellerano e “Cachorro” Mera, os exercícios incluíam também o aprendizado de como se faz possível poupar energia ao interpretar e protagonizar a intensidade); então, zagueiro Schunke, por exemplo, que sempre foi mediano na carreira, virou jogador refinado. Ao mesmo tempo, o técnico espanhol pinçou inúmeros garotos da cantera, que já subiam à equipe principal com o entendimento da proposta do seu treinador.

Essa equipe do Del Valle executa de forma brilhante dois traços do jogo de posição: espalhar e aglutinar seus adversários em campo, conforme a ocasião do jogo. Espalhar o rival no campo é necessário para que os espaços apareçam com mais facilidade. E ter espaço é tudo o que a equipe precisa. Sendo assim, encontrar espaços é um dos objetivos mais importantes do modelo; sem consegui-lo, o resultado pode ser até mesmo contraproducente. Percebam que o que falamos sobre o Del Valle também serve para o Flamengo. E como é que se consegue concretizar esse objetivo?

Bem, diferente do que muitos podem pensar, não é no jogo em si, mas nos treinos. Ensaios táticos dizem muito sobre a capacidade do técnico em fazer valer a sua proposta. Não são poucos os treinadores com ideias bielsistas que se perdem na carreira. Uma coisa é desejar dispor de uma equipe ofensiva e com perfil protagonista; outra, bem diversa, é consegui-lo. São ideias muito complexas que ao chegarem a certos cérebros estranham o ambiente, gritam por socorro e pedem para sair. Mas, como dito, a proposta se constrói nos treinamentos e não propriamente no jogo. Como?

Em geral, os treinos enfatizam inicialmente a saída do fundo, que precisa ser limpa e construtiva e que consiste em uma ação coordenada entre progressão com a bola e a tentativa dos jogadores de buscarem o melhor posicionamento para recebê-la. Outro objetivo é atrair a marcação para fragilizar o posicionamento adversário e obter espaços. Ou seja, desde que a bola sai do goleiro Pinos já se estabelece a preocupação em descobrir espaços lá no terço final . Tudo o que se pratica nas duas primeiras partes do campo é mero ensaio com vista a esta preocupação: a de obter espaços no entorno da área adversária. No Del Valle, “Pelle” Pellerano é o volante que se infiltra entre os zagueiros para comandar a saída. Este procedimento ocorre de duas maneiras. O primeiro consiste na compactação em torno da bola. Aqui convém muita atenção por parte dos jogadores rubro-negros. É que parece difícil e até irresistível não se juntar ao bloco de saída do Del Valle. Ocorre que nesses momentos sempre haverá um ou dois jogadores mais adiantados e prontos para receberem a bola. O segundo procedimento consiste em adiantar os dois laterais ao mesmo tempo e quase à linha do meio-campo. Efeito disso é que os volantes marcadores tendem a acompanhá-los e deixam o centro do campo desguarnecido, transformando-o em um corredor para que a redonda encontre Gabriel “El Gaby” Torres no campo de ataque.

Já na fase ofensiva, na maioria das vezes, o Del Valle gosta de aglutinar o seu adversário no terço final. Isto ocorre no enfrentamento com desafiantes que gostam de se defender, mas também é um comportamento que os equatorianos geram em equipes como a do Flamengo. E para consegui-lo, de novo o segredo está na compactação. Em resposta ao bloco ofensivo compactado forma-se um bloco defensivo com a mesma natureza. E quanto mais a equipe está próxima da área, mais ela se compacta em torno da bola. O objetivo primordial é o de obter superioridade numérica por fora. Explicamos: com muitos jogadores centralizados fica mais fácil para um jogador de lado de campo receber a redonda e ter facilidade de colocá-la no quadrado defensivo. No Del Valle, este papel cabe aos laterais. Pela esquerda, Deber Caicedo e, pela direita, o ótimo “Angelito” Preciado. A eficácia da jogada passa também pelo fato de que eles se posicionam abertos em relação ao bloco ofensivo, mas pouco adiantados. Sendo assim os zagueiro pouco se preocupam com eles, pois tendem a pensar que se os laterais avançarem, eles o farão em direção ao bloco compactado.

Contudo, o requinte desta equipe do Del Valle está na multiplicidade de ações. É possível notarmos inúmeros esquemas de saída, como 4-4-1-1, 4-2-3-1, 5-3-2, 4-3-3, com dois centroavantes, e, às vezes, 5-3-2 ou 4-4-2 quando jogam esses dois camisas 9. Vale lembrar que o amplo número de esquemas atende a bom número de intérpretes às ideias de Ramírez. Porém, o predileto é o 4-3-3. Em situações nas quais o adversário é defensivo, ou está defensivo em determinada partida, o esquema se transforma em um 2-3-5, que progride para o terço final com o objetivo abrir o campo, esticar a linha defensiva e oportunizar inúmeras jogadas, como o arremate de média ou longa distância (e nisto vale tomar cuidado com Moisés Caicedo) ou a colocação da bola em alguma zona livre, oportunizada por uma linha defensiva muito esticada.

Portanto a busca do homem livre para receber a bola é das maiores preocupações do Del Valle. E esta é outra característica do jogo de posição que Domènec já tenta aplicar também no Flamengo. E ela não está apenas no conjunto equatoriano, mas em equipes como o City, de Guardiola (assim como ocorria também no Bayern que o técnico espanhol comandava). E para obter o homem livre a aglutinação em torno da bola é um caminho. Por vezes, ela ocorre perto da linha lateral. O procedimento busca atrair vários jogadores rivais para um mesmo espaço do campo, enquanto um homem livre gera opção de receber a bola com no máximo um marcador próximo ou no seu entorno. São as viradas de jogo, tão eficientes quando praticadas por jogadores habilidosos.

Imediatamente após o retorno aos treinamentos, pela crise pandêmica do novo coronavírus, Ramírez intensificou os treinamentos com jogadores aglomerados em torno da bola objetivando o ganho de eficiência da pressão pós-perda. É que muito do sucesso defensivo da sua equipe depende da qualidade da pressão e recuperação pós-perda. E de novo é possível perceber a quem o treinador espanhol tem como exemplos a seguir.

O Leeds, de Bielsa, teve a melhor defesa da Championship, atuando quase por 90 minutos no entorno da área dos seus desafiantes; já o City, de Guardiola, teve o melhor ataque da Premier League, com 102 gols (17 a mais que o campeão, Liverpool) e a segunda melhor defesa, com 35 gols sofridos (dois a mais que o Liverpool). Estamos falando da materialização daquela ideia de que a melhor defesa é o ataque. Isto só ocorre quando o modelo está calibrado e amadurecido. Nisto, vale uma nota sobre a passagem de Torrent pelo New York City. Na primeira temporada, demorou a implantar o seu modelo até porque não encontrou atores para interpretar suas ideias. Já na segunda temporada foi um sucesso, levando a equipe à sua melhor campanha na história da jovem MLS. Contudo, mesmo assim, problemas defensivos apareceram. Nada de absurdo, afinal o seu NYC teve a quarta melhor defesa da competição, porém, certos gols recebidos foram vitais para que a equipe não obtivesse um sucesso ainda maior. Por certo que jogadores como Filipe Luis e Isla teriam resolvido esse problema, até porque a pressão pós-perda é um procedimento que requer combate e também orientação de alguns jogadores experientes para outros mais desatentos. No NYC a maioria dos gols sofridos pela equipe ocorria justamente pelas laterais, espaços ocupados por jogadores que sabiam atacar, mas que tinham dificuldades na recomposição defensiva.

Del Valle atual, uma máquina calibrada de jogar futebol?

Quase isso. Todavia, o “mais ou menos” se encaixa melhor na resposta. Pela partida final da Recopa contra o Flamengo, o Del Valle teve 73% de posse de bola e uma precisão de passe de 85%. Ou seja, Rubro-Negro de Jorge Jesus só venceu aquela partida porque realmente possuía uma equipe melhor, inclusive em termos de elenco. Pois bem, nos últimos 27 jogos o Del Valle igualou na posse de bola contra o Aucas, em uma partida, e teve o domínio da esférica em 26 oportunidades. E isto aconteceu com qualquer formação e tanto dentro quanto fora de casa. Mas se é possível observar que o bom desempenho é de longa data, vale ressaltar que após o retorno do futebol a equipe de “El Míster” Ramírez assume um protagonismo tão relevante que praticamente já a coloca como time que não tem rivais em uma nação futebolística que dispõe de agremiações como Barcelona, Emelec, LDU e novos pequenos leões ferozes, como o Macará, o Club Delfín e até mesmo a Católica de Quito.

Nas últimas 12 partidas foram anotados 32 gols, que geram uma média de quase 3 gols a cada jogo. Efeito indecoroso da longa parada é a quantidade de 15 gols que a defesa sofreu. O jogo praticado pelo Del Valle ocorre também na mente de seus jogadores. Isto exige deles um foco bem relevante quando aos acontecimentos do jogo. A maior parte desses gols tem ocorrido na primeira etapa, sobretudo nos primeiros 20 minutos de duelo. Isto significa que o Flamengo precisa atacar os equatorianos implacavelmente no primeiro tempo. Se conseguir fazer gols nesta etapa terá chances muito reais de não perder e até de vencer a partida. Contudo, se não fizer, corre sérios riscos de ser derrotado. Explicamos:

Verifica-se que a equipe equatoriana está de tal forma calibrada que ela precisa de poucos minutos em que as coisas ocorram com um mínimo de perfeição para colocar a redonda no arco dos seus adversários. Por vezes, precisa de poucos minutos para fazer dois ou três gols, como ocorreu diante do Delfín, em que anotou três gols em 10 minutos, e também diante do Macará (conhecido pela excelência do seu sistema defensivo), em que marcou quatro gols em 18 minutos. Mas, a despeito do atípico jogo contra o Macará, a grande maioria dos gols acontece no segundo tempo. Foram 22, além de 3 outros gols que aconteceram nos acréscimos da primeira etapa.

Por certo que a conversa nos vestiários, no intervalo, é de qualidade e se responsabiliza parcialmente pela excelência nos últimos 45 minutos de jogo. No entanto, a explicação também está na condição física da equipe equatoriana. Sua vantagem sobre todos os seus desafiantes beira o assombro, se considerarmos o pouquíssimo tempo que tiveram para o recondicionamento físico, após o retorno do futebol.

Fragilidades

Como já apontado, a falta de foco nos minutos iniciais, que deve oportunizar ao Flamengo que faça gols na primeira etapa.

Outro ponto está na contribuição de Pellerano para a construção do jogo. O que ele faz em campo nenhum outro jogador executa com a mesma qualidade. Ramírez tem se preocupado com o problema e vem tentando adaptar “Cachorro” Mera na função. Por enquanto, sem o sucesso esperado.

Outros pontos positivos: jogadores

O Del Valle ainda é uma equipe com muitos jogadores em tese medianos, porém, muito bem treinados. Aos poucos, contudo, percebemos a presença de atletas no ápice da condição técnica, como são os casos de Gaby Torres, Pellerano e Faravelli. Ao mesmo tempo, temos a presença de jovens canteranos, como o ótimo Jhon Sánchez, que atua como lateral e extremo pela direita, o lateral Ángelo Preciado entre outros. Mas a grata surpresa da equipe equatoriana é Moisés Caicedo, volante de apenas 18 anos e que já é o melhor jogador equatoriano em atividade.

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2 thoughts on ““O Independiente del Valle de Miguél Ángel Ramírez”, por Joza Novalis

  1. O Flamengo brigou com a Globo no carioca. Resultado: ninguém pode ver os jogos e o clube perdeu 18 milhões em plena pandemia.
    Agora a Libertadores foi pro SBT a emissora particular mais paulista e bairrista que conhecemos.
    Os interesses do SBT no mercado paulista são tão latentes que no início da década retrasada, quando o Silvio se reuniu com a CBF para aquisição das cotas de transmissão do brasileirão ele deixou bem claro que só queria as cotas dos clubes paulistas, dos clubes dos demais estados, naquela oportunidade, não interessava nem de graça.
    Não entendo a torcida do Flamengo comemorar a ida da Libertadores pra essa emissora.
    O Flamengo joga hoje e teremos só o Facebook.
    Cadê o SBT? Nunca que eles darão prioridade ao Flamengo, priorizarão sempre o Palmeiras.

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