Bruno Maia: “Foi cedo para uma cobrança em um jogo individual. O papel do streaming é complementar, diversificar o conteúdo”

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A Folha de SP entrevistou o executivo de marketing Bruno Maia, consultor de negócios e transformação digital na indústria do esporte.

O ponto de discussão, a transmissão dos jogos do Flamengo via streaming, através do seu canal no YouTube.

Após o sucesso absoluto no jogo contra o Boavista, quando clube somou mais de meio milhão de novas inscrições, ou mais de 60% dos 840 mil inscritos conquistados durante os últimos 30 dias, os dirigentes Rubro-Negros deram um passo maior do que a perna. Para a semifinal contra o Volta Redonda, no último domingo, o Flamengo negociou a transmissão na plataforma de streaming My Cujoo. E foi um vexame, seja por falta de infraestrutura do aplicativo, seja por erro estratégico de iniciar uma cobrança de um jogo de futebol em meio ao debate da Medida Provisória.

Bruno Maia acredita que é preciso fazer a transição gradual, e não exportar o produto sem saber se o usuário gostará disso, pois ninguém teve a oportunidade de testar anteriormente. Além disso, destaca que o maior papel do streaming não será de concorrência com a televisão, mas de fornecimento ao clube de um grande volume de dados sobre seus torcedores.

Confira a ótima entrevista. Esse site torce para o Flamengo ter gente com conhecimento no assunto em seus diretores.


Houve equívoco do Flamengo em cobrar para transmissão de domingo?

Entendendo que é muito cedo, sim, para fazer uma cobrança de um jogo individual. Em nenhum lugar no mundo, isso acontece dessa forma. O papel do streaming é complementar, diversificar o conteúdo e interpretar o comportamento dos usuários, entender o interesse que eles têm. É precipitado pensar em transformar um jogo de futebol de alto nível onde existe uma cultura, como no Brasil, de televisão aberta. É complicado tentar migrar de forma abrupta, ou que não é culpa do streaming.

Qual seria o caminho mais seguro para o Flamengo e outros clubes percorridos nessa tentativa de bancar suas transmissões?

Os clubes iniciam com um conteúdo que não é “prime”, ou seja, o grande jogo. Isso depende de uma estrutura de massificação, promoção, que hoje só está na mão dos grandes conglomerados de mídia. Os clubes ainda não têm esse “know-how”. Eles podem incorporar ou transmitir com conteúdo de bastidores da equipe, história do clube, transmitir partidas com menos apelo, um jogo amistoso. Começar a fazer gradualmente, não expor o seu principal produto de maneira açodada e sem saber se o usuário gosta daquilo, se tiver o potencial de consumo para gastar dinheiro, incluindo um jogo. Ninguém estreia uma grande peça sem teste antes, ninguém vai para uma final do campeonato sem treinar antes. Isso vale também para qualquer modelo de negócio.

Os 2,2 milhões de pico de audiência no jogo entre Flamengo e Boavista foram um registro em streaming, mas bem abaixo do fornecido pela TV aberta. Quais medidas devem ser adotadas para comparar os dois formatos?

Como estamos falando de uma forma de transmissão, uma televisão, que está presente em 100% do território nacional, e outra que ainda está muito longe disso, não existe comparação possível. A televisão cumpre o papel de alcance, mas um alcance é impreciso, com muitas pessoas atingidas e que não são capazes de consumir o produto. A principal métrica do streaming neste momento é o número de pessoas que mais consigo trazer para o banco de dados do clube. Com quantas posso compartilhar informações ou vender serviços. O clube ter um “lead” [informações dos seguidores] na mão pode ser algo muito valioso para vender uma ação de publicidade. Agora, conduza o seu canal, não o Facebook, o My Cujoo, porque assim o dado fica retido por lá.

Há um modelo no Futebol Europeu que possa servir para os clubes brasileiros usarem de guia nesse caminho gradual em direção ao streaming?

O principal modelo que existe hoje é o de não utilizar o streaming para os principais produtos. Nenhum clube europeu faz a transmissão dos seus principais jogos a partir do streaming. Tem uma pretensão no Brasil de criar lá na frente, de chegar aonde o Barcelona não chegou. A referência da Europa é clara. O Manchester City fez amistosos e transmitiu sua TV, isso é legal, mas não é da Premier League, da Liga dos Campeões. No Brasil, pode-se questionar a importância dos estágios, mas [como TVs] pagará um valor alto para os clubes, por mais que o Flamengo não tenha achado suficiente. Se a televisão parar de transmitir, talvez exista espaço para essa forma [streaming], mas não gerará o mesmo dinheiro tão cedo.

Dirigentes entusiastas do MP e o próprio Bolsonaro falaram em “carta de alforria” para os clubes nos direitos de transmissão. Faz sentido usar esse termo?

Não faz sentido. A alforria não vem por uma decisão apenas, tem que criar um empoderamento dos clubes. Se não organizar toda a cadeia, será liberado um ou outro tempo, jogando uma indústria inteira na pior. Sou a favor de que o mandante tenha uma propriedade sobre o jogo, mas não discute a segurança jurídica dos contratos em vigor, ele fica livre para negociar e com segurança jurídica. Qual a liberdade? Na melhor das hipóteses, poderia ser o início de uma alforria, mas quando é feita uma maneira típica, unilateral e sem uma discussão, cria uma polarização e politização sobre uma discussão, que deve ser técnica. Tanto é que o presidente [Jair Bolsonaro] comemorou a primeira transmissão do Flamengo com números bem diferentes [dos divulgados pelo clube]. Estamos vivendo muita insegurança, dúvidas,

Para o patrocinador da camisa do clube e das placas em estádio é mais interessante contar com uma abrangência da Televisão?

A princípio é muito mais importante contar com televisão. A lança é que, quando você começa uma receita com streaming, terá outro tipo de patrocinador, que não está exatamente preocupado com a exposição da marca, mas quer vender um produto e usar sua base de fãs. Quando temos patrocinadores na camisa dos horários brasileiros, como os bancos digitais, que pagam 1/3 na média com adiantamento fixo dos valores do contrato e colocam 2/3 do desempenho, aí está o problema. Essa performance não acontece meramente por exposição em camisa, não é de natureza dinâmica.

O Brasil tem infraestrutura de internet hoje para comportar uma transmissão de cinco ou mais partidas simultâneas com audiências acima de 1 milhão?

A questão é a estrutura das empresas que trabalham com transmissão de dados. Óbvio que temos sobrecarga nas redes de empresas da Internet, mas não é o grande gargalho. O que não temos ainda é uma rede 5G, que permite um volume maior de dados. A Netflix tem uma estrutura para a conta que exige o envio de todos ao mesmo tempo, mas nem todos os jogadores têm a mesma estrutura.

(Foto: Alexandre Vidal e Marcelo Cortes / Flamengo)

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