Para arrecadar mais no PPV, Globo tirou o Flamengo da TV aberta. Agora, o pay-per-view é o novo problema do futebol brasileiro

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Quando o Flamengo pagava dívida e disputava o meio da tabela do Campeonato Brasileiro, ou era eliminado de forma vexatória na fase de grupos da Libertadores ou perdia decisões para times dopados financeiramente na Copa do Brasil, não havia problema e reclamação.

Nesse meio tempo, criou-se a ideia de que estava em curso a espanholização do futebol brasileiro com Flamengo e Corinthians. Depois, através do seu mecenato, o Palmeiras substituiu o co-irmão nessa suposta hegemonia.

O jogo virou e, nem bem completou-se um ano do título brasileiro Rubro-Negro, agora cria-se outro monstro: o risco do Brasil virar Alemanha, tendo o Bayern de Munique, ganhador de oito títulos nacionais seguidos, como expoente.

É forçoso dizer que não havia esse temor quando o São Paulo foi tricampeão brasileiro. Quando o Corinthians varreu todos os títulos na década. Quando os paulistas alternavam títulos nacionais em 2015, 2016, 2017 e 2018. Bastou o Flamengo ser campeão em 2019, com toda superioridade imposta em campo, tendo 16 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, para o discurso começar.

É interessante que, aparentemente, o Brasileirão só seria viável e equilibrado com a redistribuição das cotas de televisão. O “modelo inglês” precisaria ser adotado para impedir a hegemonia do Flamengo. Por ironia do destino, justamente no primeiro ano de vigência dessa regra, quem é o campeão nacional de forma avassaladora? O Rubro-Negro da Gávea.

Agora é preciso arrumar novas estratégias, novos subterfúgios para não deixar o Flamengo surfar sozinho na onda criada por méritos próprios.

O curioso é que não há exigência por eficiência na gestão, cobrança por acerto na condução do futebol e salário em dia nos outros clubes, como existia com o Rubro-Negro no tempo das vacas magras.

Após instituir a divisão 40 x 30 x 30 nas TVs abertas e fechadas para o Campeonato Brasileiro até 2024, o alvo passa a ser o PPV. E percebe-se claramente que o objetivo não é evitar distorção, mas tentar frear o Flamengo de alguma forma.

A ideia do PPV é que o clube receba de acordo com a demanda do torcedor. O assinante que se declarou Rubro-Negro no ano passado foi de 369 mil, e foi líder, com 18,8% das assinaturas. Dessa forma a Globo pagou R$ 122,5 milhões ao Flamengo.  O clube tem no contrato uma cláusula que lhe garante um valor certo de R$ 120 milhões, ou 18,5%, mesmo que não alcance esse patamar, porque negociou bem com a emissora e não antecipou luvas.

O Corinthians surfou na onda do Flamengo e conseguiu sua garantia de R$ 120 milhões. Contudo, na pesquisa realizada de cada assinante, apontou um percentual de 12,2%, o que significa que recebe cerca de R$ 40 milhões apenas por força contratual, e não por méritos de ter essa quantidade de torcedor assinante do PPV. Essa correção deveria ser alvo de discussão, mas o alvo é somente o Rubro-Negro.

E tem mais: o que a Globo fez para vender pacotes? Tirou o Flamengo da TV aberta e despejou jogos do clube no PPV. No ano passado, o torcedor Rubro-Negro pôde acompanhar apenas 11 partidas na TV aberta, apenas uma na TV fechada (Sportv) e 26 duelos no PPV.

Na tabela final de receitas, considerando o sistema de distribuição de 40 (igual para todos) x 30 (número de transmissão) x 30 (classificação final), o Flamengo, foi a quarto time que menos recebeu a grana da TV. Foram apenas R$ 11 milhões por número de transmissão. Somente o Bahia, Ceará e Fortaleza receberam menos que o Rubro-Negro. A “sorte” foi que o clube bateu campeão e faturou R$ 33 milhões por ter terminado em primeiro lugar.

A divisão do “modelo inglês” não funcionou para tirar a força do clube da Gávea. Agora farão de tudo para tentar frear o sucesso do Flamengo, que ainda não é hegemônica – foi apenas um campeonato brasileiro, mas já assusta por ser financeiramente saudável e por não precisar de um mecena bancando o clube.

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One thought on “Para arrecadar mais no PPV, Globo tirou o Flamengo da TV aberta. Agora, o pay-per-view é o novo problema do futebol brasileiro

  1. Excepcional o texto e a reflexão… eh uma tecla na qual bato ha muito tempo: a Guerra Fria no futebol brasileiro Paulistas vs Flamengo.
    Sem falar no bairrismo cada vez mais descarado e insuportavel da midia esportiva, praricamente inteiramente dominada por jornalistas paulistas…
    Lembro bem depois do Tri Brasileiro do São Paulo FC em 2006-07-08 em reportagem da ESPN em que os jornalistas não conseguiam esconder o sorriso ao falar em Lyonizacao do futebol brasileiro (o Lyon era 7 vezes seguida campeão francês… “isso aqui eh trabalho!”…
    Mas se falamos isso, nós eh que estamos sendo bairristas…
    Eh interessante tambem as reações em Porto Alegre e Belo Horizonte. Eles parecem não se importar nem um pouco em ser meros coadjuvantes do futebol paulista… mas de um clube carioca? Nunca! Frenesi total de Atletico MG e Gremio. Dois clubes que não ganham brasileiro ha mais de 20 anos e parece que soh agora, depois de 2019, descobriram isso…
    SRN
    Marcel Pereira

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