Antes de falar em união, é preciso mecanismos financeiros rígidos e que todos os clubes estejam sob a mesma regra

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Em 2013, a nova gestão assumia o Flamengo e os trabalhos foram abertos com uma auditória realizada pela Ernst & Young.  O estudo apontou um rombo de R$ 750,7 milhões nos cofres do clube. A dívida era 300% acima do estimado inicialmente pelos antigos dirigentes.

No final de 2012, o  Conselho Deliberativo Rubro-Negro aprovou o patrocínio da Adidas. As luvas pagas pelo negócio, cerca de R$ 40 milhões, foram utilizadas para pagar dívidas federais, conseguindo, assim, obter a certidão negativa de débitos, o que abriu um leque de oportunidades de incentivo fiscal.

Contudo, o símbolo de que o Flamengo realmente passava a viver outros tempos, pensando à longo prazo, foi a devolução de Vágner Love com apenas 13 dias da nova gestão. O Rubro-Negro disse que não teria como arcar com a dívida com o CSKA. Love, o principal jogador da equipe, recebia um salário de R$ 500 mil. Os pagamentos de luvas e de R$ 1,2 milhão de direitos de imagem estavam atrasados.

Sete anos depois, é a vez do Corinthians viver a mesma situação, porém, com atitude contrária. A equipe paulista está com três meses de salários atrasados. A dívida aumentou em R$ 196 milhões e chegou a R$ 665 milhões, sendo R$ 110 milhões referentes a Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de funcionários e jogadores.

Mesmo assim, após rescindir com Vágner Love, a equipe paulista anunciou a contratação do atacante Jô, de 33 anos, por três anos de contrato, com salário de R$ 700 mil por mês. Por que não se contentar com Boselli, Yoni González, Everaldo, Janderson? Em 2013 o Flamengo se segurou com Hernane Brocador, e foi um sucesso.

É recorrente o discurso clamando por união no futebol brasileiro. De que ideias individuais atrapalham o futebol brasileiro. Justamente no momento que o Flamengo parece despontar para uma hegemonia econômica e esportiva.

É curioso, pois quando o São Paulo foi tricampeão brasileiro, o clube do Morumbi era exaltado pela sua competente estrutura e um sistema de pontos corridos que privilegia regularidade, um elenco forte e o trabalhador do treinador.

UOL / 2007:

O Corinthians levou tudo de 2011 a 2017. Em 2018, a equipe paulista acumulava títulos e glórias. Tinha uma administração e mentalidade vencedora. Já o Rubro-Negro tem sido um fracasso.

Lance / 2018:

O Palmeiras tem dois títulos Brasileiros em 2016 e 2018 e também não havia sequer comentários de união em prol do futebol brasileiro, para impedir a hegemonia paulista, tendo em vista que o Corinthians foi campeão em 2015 e 2017.

O único discurso para quem quisesse alcançar o topo era de exigência por gestão, profissionalismo e estrutura. Não havia espaço para clubes com salários atrasados, centro de treinamentos caindo ao pedaços e times sem grandes jogadores.

Finalmente o Flamengo conseguiu unir os bons resultados financeiros com títulos em campo. E não foi de forma tímida, mas veio de forma avassaladora, com as conquistas do Brasileiro com 16 pontos de vantagem sobre o segundo colocado e da Libertadores, além da Recopa Sul-Americana e Supercopa do Brasil esse ano. Somado ao fato de ter conseguido manter praticamente todo o elenco do ano mágico de 2019, e renovado com Gabigol e Jorge Jesus, dois expoentes da soberania Rubro-Negra.

E tudo isso, justamente no ano em que a nova divisão da cota de televisão foi implantada. A ideia, segundo os adversários, seria impedir uma suposta espanholização do futebol brasileiro. Para isso, a grana da TV aberta e fechada foi dividida pela primeira vez de forma meritocrata: 40% (partes iguais) x 30% (número de transmissão) x 30% (classificação final). O Flamengo, inclusive, foi a quarto time que menos recebeu a grana da TV. Isso porque teve menos jogos transmitidos na TV aberta e fechada, para que o PPV fosse largamente vendido, e recebeu menos por isso. A fonte está aqui. O novo alvo agora dos adversários é o PPV. O Rubro-Negro recebe uma cota fixa de R$ 120 milhões. Confira aqui.

O clube da Gávea agora colhe os frutos lá da devolução do Vágner Love em 2013, quando, poderia muito bem, ter usado as luvas do patrocínio da Adidas para manter o atacante. Mas sabia que as penhoras judiciais bloqueariam as contas e patrocínios futuros.

É necessário falar em criação de mecanismos financeiros rígidos, fair play financeiro, regras duras para pagamento de dívidas antes de se falar em liga, união, negociação em bloco. Que todos estejam sob as mesmas regras de governança e controle financeiro.

(Fotos: Alexandre Vidal / Divulgação )

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