O que esperar do Junior de Barranquilla, por Joza Novalis

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O mestre Joza Novalis está de volta ao Ninho. Ele que foi o autor de brilhantes e elaboradas análises aqui no Ninho (no site antigo), agora escreve com maestria sobre o adversário do Flamengo na estreia da Libertadores.

Confira:

O Junior de Barranquilla pode ser um rival interessante para o Flamengo, provável que o mais tranquilo no Grupo A da Libertadores. Claro, tudo em tese. Ocorre que há um problema no jogo do Junior, o que pode fazer com que o Tubarão de Barranquilla se torne presa fácil e caia na rede do Fla. Equipe cara, com bons jogadores e com crescente evolução no cenário do futebol local e sul-americano. Mas o problema está no encaixe do seu modelo de jogo à forma como o Rubro-Negro se apresenta dentro de campo. Vejamos.

O Junior, o clube e a equipe por dentro

O Junior Barranquilla é um clube que contrata muito, mas contrata mal. É administrado de forma autocrática pelo seu presidente de honra e dono, Fuad Char, um dirigente que não admite críticas, questionamentos ao que faz e manifestações públicas de insatisfação. Até aí nada de novo, pois conhecemos este cenário em vário clubes do futebol brasileiro. Problema, contudo, está no fato de que Fuad exige que sua postura seja também a de todos aqueles que têm uma posição de comando no clube, especialmente técnico. Paradoxal, todavia, é o fato de que o dirigente exerce uma proteção aos seus jogadores muito além do que eles realmente merecem. Ou seja, cenário bem conhecido da torcida rubro-negra, que se recorda quando o “papai” Bandeira pegava carinhosamente Marcio Araújo no colo, mimava o menino e o defendia sempre que ele recebia críticas (justas) de jornalistas e torcedores.

O técnico, Julio Comesaña é o mesmo de sempre. Porque só ele dá certo no Junior. Porque só ele consegue lidar com os folgadinhos do elenco. E como ele é? Nervoso, mau-humorado e do tipo que gosta de dar porrada, já chamou dois para o pega nos vestiários. Já teve crise nervosa, princípio de infarto e restrição médica ao seu trabalho. A piada que se conta em Barranquilla dá conta de que ele pegou o tal médico pelo colarinho e gritou: “quem não trabalha mais é você”. Então, se cansou, mandou tudo para o inferno e se foi. Foi convencido pelo presidente a voltar. Voltou. Olhou bem Téo Gutiérrez nos olhos e falou: “se você não fizer um gol por partida, eu parto sua cara no fima da temporada”. Comesaña não é propriamente um técnico ruim. Problema dele é o paradoxo do Junior, uma chaga que corrói o clube por dentro.

Alguns jogadores se cansam e pedem para sair. São atendidos e se vão; outros permanecem porque gostam da farra ou porque têm ilusões de que um dia ela acabará. Téo Gutiérrez mandou mensagens eróticas para a esposa de um companheiro. Quando este foi reclamar na sala do presidente, acompanhado pelo técnico, o Téo malvado já havia passado por lá, e alegado que a vítima era ele, afetado profundamente pelo que a beleza da moça causava nas suas emoções. Insatisfeito com a solução do caso, “Bufalo” Avelar, o marido ofendido, pediu para ser negociado e se foi.

Em campo, estamos falando de um elenco caríssimo que entrega bem menos do que vale. Fora da Colômbia ganha muito pouco ou quase nada; dentro de casa até ganha alguma coisa, mas muito menos do que deveria. Foi o campeão do Apertura, mas o rival foi o modestíssimo Deportivo Pasto, e foi nos pênaltis, e foi “por uma cabeça”, por pouco não perde. E perdeu o Clausura para o America de Cali porque dentro de casa não fez nenhum gol; fora, também não, levou dois e ao fim da partida seus jogadores ficaram todos sentados no gramado do Paschoal Guerrero vendo uma equipe bem inferior comemorar a conquista do caneco. O América só venceu por causa da camisa, por causa da tradição, muito pouco além disso. Em meio às comemorações dos campeões, algumas câmeras captavam os jogadores do Junior sentados no campo e flagravam o cansaço físico e mental, contudo, quase nada de chateação. Era como se eles não se importassem; o “tudo bem” já havia se apoderado da alma; era como se para eles importava mais era a volta para casa, ou, para os mais safadinhos, uma boa noitada em alguma boite local.

Portanto, amigos, pelo momento que vive, por suas contradições internas e demagogia, o Clube Atlético Junior, o mais querido e popular de Barranquilla, não passa, atualmente, de um cavalo refugador. Porém, de que forma esse contexto de discoteca dos anos 70 se reflete no desempenho da equipe dentro de campo?

O Junior, dentro de campo

A equipe do Junior gosta de ter a posse da bola, de dominar as ações e ser protagonista. Aprecia também a ideia de se assenhorar da segunda parte do campo, a que pertence à defesa de seus adversários. Proposta ousada, portanto. Contudo, as melhores referências para sua efetivação se foram da equipe, como Cantillo, que se transferiu para o Corinthians. Dos reforços, nenhum deles dispõe de tais características, o que escancara a dificuldade do clube em contratar de forma correta. Mas na cartilha do Junior também há espaço para a cessão da redonda para o adversário e a prática do jogo vertical, de contragolpe rápido e com potencial para causar danos aos seus desafiantes.

A proposta do Junior de se trancar na defesa é bem interessante para o Flamengo. Ocorre que na maior parte do tempo o seu contra-ataque se efetiva pelos lados do campo, o que precisa contar com a eficiência dos laterais para que o resultado seja positivo. Mas os laterias deixam a desejar, neste sentido. Um deles (Gabriel Fuentes) é muito bom, mas é sobrecarregado, dentro de campo, e via de regra boicotado pelo técnico, no banco, porque custa a retornar ao setor defensivo. O outro é lento e não costuma fazer estragos diante de defensores rápidos ou ao menos bem posicionados. Pressionados, os laterais tendem a se juntar aos dois zagueiros, formando um quarteto compactado no entorno da área.

Problema disso está no fato de que permite aos atacantes adversários que aprofundem o campo. Mas em tais situações, convém que o cruzamento pelo alto não ocorra com frequência, em vez disso, o melhor é o passe em diagonal ou o passe mais recuado, que se depare com um arremate de fora da área. Sendo assim, não há problema para o Flamengo em exercer pressão sobre o Junior, pois a possibilidade de sofrer um contragolpe está na mesma proporção da ineficiência da jogada. Com o devido bloqueio aos lados do campo, o Rubro-Negro pode até praticar uma linha média/alta, com os zagueiros auxiliando na construção ofensiva.

Para a construção de seu jogo protagonista o Junior conta com três meio-campistas de criação, Sánchez, Cárdenas e Hinestroza, que é um atacante de origem, mas que tem sido colocado no setor por falta de contingente. Apenas dois deles vão jogar contra o Flamengo. De certa forma, o passe sai limpo, mas a linha de passe é confusa e tende perder eficiência nas progressões rápidas rumo à área adversária. Além disso, nas proximidades da área o passe entre linhas não sai com facilidade, o que os obriga a recuar a bola ou ficar girando-a em espaços curtos e contraproducentes. A previsibilidade do passe, a lentidão na confecção de jogadas e a boa marcação aos seus principais atacantes danificam no Junior a sua capacidade de obter sucesso na sua proposta ofensiva.

Além disso, os laterais nem sempre aprofundam o campo, deixando este serviço para os volantes mais marcadores, o que os retira não apenas do apoio por dentro, mas também do melhor posicionamento para cortar o contragolpe rival. Sendo assim, também não há problema para o Flamengo em sofrer pressão da equipe colombiana; bem pelo contrário. Quando pressiona, o Junior faz justamente aquilo que o Rubro-Negro mais gosta: gera espaços para a construção em velocidade.

Algum perigo à vista

Mas há uma novidade no Junior. Trata-se do jovem Edwuin Cetré. A polivalência do moço chama a atenção e é uma das razões pelas quais não ficará no futebol local por muito tempo. Ele pode atuar como falso 9, como extremo pelos dois lados do campo, como meia-ofensivo por dentro ou até como primeiro ou segundo volante. E com um detalhe: executa todas essas funções com certa competência. Na partida contra o Flamengo, é bem possível que apareça como extremo pela esquerda. Por dentro ou pelos lados do campo, Cetré encontra espaços para progredir. Veloz, consegue chegar no entorno da área num piscar de olhos e pisa dentro dela para arrematar. Também possui um bom passe final, que em geral vai para Téo Gutiérrez ou, mais recentemente, Miguel Ángel Borja. Cetré é dinâmico, de difícil marcação e imprevisível. Não tem medo de cara feia e é bem eficiente no um contra um. Vai precisar de muita atenção dos defensores flamenguistas.

Téo Gutiérrez pode até ser o pesadelo de todas as mães que possuem filhas solteiras. Mas é indiscutível que tem qualidades. Faz um ótimo pivô, arremate bem, tem bom cabeceio e também costuma sair da área para abrir espaços e também ajudar na construção. Já dá indícios de que formará com Borja uma dupla interessante.

O temperamento introspectivo de fato contribuiu para o ex-palmeirense não se dar bem no Brasil. Borja precisa de um ambiente receptivo, de forte apoio e acolhimento. Não estamos dizendo que não encontrou tal ambiente no Verdão. Problema é que a cabeça dele entendeu desta forma. No Palmeiras, por vezes era um sonso; por vezes um morto. Contudo, no Junior, é um outro jogador completamente diferente. Recuperou a alegria de jogar futebol e já sinaliza que pode valer ao menos a metade do que o clube brasileiro pagou nele. Borja e Téo fazem uma dupla que vai exigir certa atenção do Flamengo. Mas a presença deles em campo não deixa de ser interessante: eles não marcam ninguém. Téo não marca porque não tem compromisso com o assunto e até ja deixou claro que não precisa mesmo fazê-lo. Borja até possui comprometimento tático, porém parece faltar disposição física para a prática. E se eles não recompõem defensivamente tampouco agridem na saída de bola, o que facilita à defesa rubro-negra a saída limpa do fundo.

Como dissemos no inicio, o Junior pode ser um rival interessante para o Flamengo. Isto ocorre porque o seu jogo não se encaixa bem na proposta protagonista da equipe carioca. Mas, tudo isso em tese. Afinal, o futebol é uma “caixinha de surpresas”, Okay? Certamente. Até por isso que as melhores equipes precisam se favoritar dentro de campo, no jogo, na percepção do rival e na preocupação incessante de superá-lo. Isto se chama protagonismo mental. Felizmente para a torcida rubro-negra este tal protagonismo já parece fazer parte do seu DNA de sua equipe, após a chegada de Jorge Jesus. Se de fato mantê-lo contra o Junior é bem provável não apenas que o vença, mas que deixe, logo de cara, o seu recado acerca de sua pretensão nesta atual edição da Libertadores de America.

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