O 8 de fevereiro se aproxima, e o Flamengo precisa resolver questões que vão além das indenizações

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No Fla-Flu dessa quarta-feira, pela Taça Guanabara, a torcida tricolor gritou “time de assassinos”, em alusão à tragédia do dia 8 de fevereiro do ano passado, que ceifou a vida de dez jovens no Centro de Treinamento Ninho do Urubu.

Quem estava em campo era a equipe sub-20 do Flamengo, com jogadores que conviveram com os próprios atletas que tiveram a vida ceifada. Para aumentar o absurdo.

A manifestação cretina se iniciou no clássico contra o Botafogo pelo Brasileirão, quando a torcida alvinegra colou nas paredes e postes no percurso destinado à entrada da torcida Rubro-Negra no Engenhão, cartazes com o rosto das vítimas do trágico acidente.

Por ironia do destino, Lincoln, revelado no Ninho, fez o gol da vitória nos minutos finais.

Contra o Vasco, no 4 x 4, novos gritos relembrando o acidente foram ecoados. Em menor número, diga-se.

As conquistas históricas do Flamengo ano passado, ganhando a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro no mesmo final de semana, somado às grandes contratações nesse começo de ano, que encaminham para mais uma temporada de soberania do Rubro-Negro, parecem ter ampliado o verdadeiro ódio que nutrem do clube da Gávea e amplificado o grito de “time de assassinos”, que contou com a adesão de grande parte de torcedores do Fluminense.

As manifestações foram o que restaram aos adversários. Não há nenhum outro grito que cause tamanha ferida como zombar e debochar da tragédia.

Que fique claro para não ter hipocrisia: não estão interessados nas famílias das crianças, não sabem os nomes dos falecidos, não querem encontrar os culpados. Outros desejam que o clube pague as indenizações milionárias somente para enfraquecê-lo financeiramente. Enxergam nessa situação a oportunidade para o Flamengo deixar de se reforçar dentro de campo. O único sentimento que move esses ataques é o clubismo.

Não se engane pois, para essa gente, mesmo o Flamengo acertando com as seis famílias e meia que faltam, o grito não irá cessar, porque o objetivo não são nobres.

No acidente da Chapecoense, a compaixão foi unânime. Ninguém ousou zombar ou fazer piada. Quem fazia qualquer alusão era escrachado na hora. É inacreditável a forma que tratam essa tragédia no Ninho, por pura rivalidade e ódio.

Por outro lado, o Flamengo não demonstra a mínima sensibilidade para tratar esse assunto tão delicado. Ter sucesso no mundo empresarial não faz de executivos experts na administração de clubes. Futebol envolve mais do que números, cifras. Nada se compara a paixão do torcedor pelo seu clube. No mundo corporativo isso não existe.

Exigir o acerto com as famílias talvez, nessa altura, seja praticamente impossível. São tantas particularidades, expectativas e a dura missão de calcular quanto custa uma vida, que fica difícil cravar algo nesse sentido, infelizmente. Talvez só se resolvessem voltar a negociar com a Defensoria Pública e aceitar o acordo proposto à época de R$ 2 milhões mais pensão mensal de R$ 10 mil, que já é paga mensalmente por decisão judicial.

Importante dizer que, mesmo com reforços e contratações, o clube reservou no orçamento uma rubrica para tratar das indenizações: R$ 22 milhões.

Falta o Flamengo ser transparente com seu próprio torcedor, que se esgoela para defender a honra do clube desde a noite dessa quarta-feira do Fla-Flu no Maracanã. Nem uma nota de repúdio frente as manifestações da torcida tricolor foi redigida.

(Nota da Redação: o Ninho da Nação encomendou uma entrevista com o vice-presidente jurídico do Rubro-Negro, Rodrigo Dunshee de Abranches. E estamos no aguardo das respostas).

Pode ser que existam restrições judiciais que impeçam qualquer aproximação do clube com as famílias pendentes de acordo, que poderia ser visto como aliciamento. Até a autorização para a construção de um memorial no local da tragédia implicaria em questões jurídicas não tão fáceis de resolver. O problema é que o clube agarra a esses formalismos para não se mover nessa direção. Até as famílias que entraram em acordo estão longe da Gávea.

Recentemente, cinco jogadores que escaparam do incêndio foram dispensados. É justo o questionamento se esses jovens tiveram psicológico suficiente para apresentar um futebol capaz de encher os olhos da gestão de base do clube.

O 8 de fevereiro está chegando. Tudo virá à tona novamente. O Flamengo precisa resolver essas questões que não se resumem a meras resoluções financeiras, mas também de acolhimento, solidariedade, transparência e comunicação com a torcida.

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One thought on “O 8 de fevereiro se aproxima, e o Flamengo precisa resolver questões que vão além das indenizações

  1. Perfeito o post.

    As manifestações e os gritos dos adversários não tem NENHUM cunho de cobrança. NENHUM. Nenhuma família se sente representada naquilo. Eh só mais uma demonstração de como o ser humano pode ser incrivelmente desprezível. Acham que no futebol tudo pode. Não pode. São vidas.

    Nós no papel de torcedores, que sentimos e vamos sempre sentir a dor da tragédia, temos obrigação de cobrar, no mínimo, uma comunicação decente sobre a tragédia.

    Ficamos completamente sem norte em relação a isso. Não sabemos se está caminhando, o que está caminhando, se algum acordo ainda pode ser fechado ou se todas as outras 6 famílias vão de fato aguardar a justiça (acho MUITO difícil).

    Como vc falou, não são números, futebol mexe com paixão e nesse caso específico, com vidas.

    Até a Vale, mesmo que toda errada em todos os sentidos, mesmo que com muita culpa e fazendo coisas erradas, trata de manter todos atualizados com relação a quantidade de acordos feitos e etc.

    Ainda em relação a acordos, não me parece de fato haver tanto esforço do Fla pra conseguir mais algum (provavelmente pela falta de comunicação ao público). Não acho razoável que depois de um ano, apenas 3 famílias e meia entre as vítimas fatais tenham entrado em acordo. Não sei a distancia entre o que é pedido e o que é oferecido, mas dada a situação financeira do clube, seria razoável imaginar que podemos ser um pouco mais sensíveis e ceder um pouco mais em relação a isso. Afinal, além da óbvia questão da indenização em si, é a imagem do Fla que vai sendo arranhada enquanto o tempo vai passando. Vai fazer um ano agora, e o time será atacado por reportagens que indicarão que 6 famílias e meia ainda não entraram em acordo. Enfim.

    Em relação a diretoria, temos que cobrar mais celeridade e empenho nas discussões de indenização das famílias, e certamente precisamos cobrar uma comunicação MUITO melhor e muito mais clara em relação a tudo isso.

    Por fim, não podemos esquecer de cobrar também as autoridades em relação a investigação dos fatos e das pessoas envolvidas na tragédia e que eventuais culpados sejam devidamente punidos.

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