Ninho da Nação

REPORTAGEM ESPECIAL: Em ano histórico, Flamengo ajuda a aliviar perdas, depressão e ansiedade

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É correto dizer que o ano de 2019 jamais será esquecido pela torcida Rubro-Negra. Será impossível não se recordar de jogos emblemáticos para a conquista do Campeonato Brasileiro e da Copa Libertadores.

Pode-se dizer que foram onze protagonistas dentro de campo, de uma equipe titular que está na boca do povo. Foram diversos momentos marcantes: a vinda de Jesus será um marco eterno na vida do clube; a volta de Diego justamente na final, sendo peça decisiva na virada no final do jogo, após uma dura contusão na fase de grupos da Libertadores; a comemoração do Gabigol; o outro patamar de Bruno Henrique; a categoria decisiva de Arrascaeta; o talento de Rafinha e Filipe Luís; a força do Gérson; a frieza de Éverton Ribeiro; a segurança de Diego Alves, Rodrigo Caio e Pablo Marí; o renascimento de Arão; a juventude de Reinier decidindo partidas importantes; o Maracanã sempre lotado.

Para dois torcedores, em especial, 2019 significou um período marcado por perdas, tristezas e depressão. No entanto, puderam contar com o Flamengo, com as vitórias Rubro-Negras e idas ao Maracanã, para, pelo menos por um instante, superar os percalços da vida.

Marcela e Felipe toparam contar um pouco dos momentos difíceis que passaram: mortes, perdas, depressão e sentimentos de suicídio, e de que forma o Rubro-Negro foi importante em suas vidas.

Confira os relatos:

NOME COMPLETO: Marcela Silva (@marcelaelaela) (Não quis enviar fotos…hehe)

QUEM É A MARCELA

– Sou de Cabo Frio/RJ. Tenho 38 anos, 39 agora em janeiro, solteira enrolada, não tenho e não pretendo ter filhos. Formada em Ciência da Computação, mas nunca exerci. Trabalhei com Design Gráfico em jornais e freelas, mas a depressão sempre atrapalhou minha vida profissional. Tenho depressão desde os 17 anos. A fase mais aguda foi até os 27/28 anos, período que afastei tudo e todos de mim. Depois disso me adaptei a minha tristeza, com algumas recaídas. Sou muito tímida, mas “extrovertímida”. Meus programas favoritos são shows, vou a vários, saio de Cabo Frio pro Rio só pra assistir a um show e volto, amo música e, claro, acompanhar o Flamengo.

 2019

– Apesar de todo problema com depressão ao longo dos anos, foi 2019 o pior ano da minha vida. Na verdade, começou em novembro de 2018, quando perdi minha irmã de 48 anos, três dias antes de completar 49, repentinamente, vítima de um aneurisma cerebral nunca diagnosticado. No início de 2019, minha outra irmã, mais velha, que coincidentemente já tinha um diagnóstico de aneurisma cerebral, e o tratava sob-controle, recebeu a notícia que deveria operar com urgência. Cinco meses depois, o mesmo drama, mas dessa vez com final feliz. Um mês depois, minha mãe, de 77 anos, foi diagnosticada com Mieloma Múltiplo. Passei dois meses morando numa hospital ao lado dela. Hoje, minha vida é cuidar da minha mãe acamada, como se fosse minha filha. Quando parecia que nada de pior poderia acontecer, em dezembro perdi meu tio, que na verdade era meu pai, pois foi quem me criou. Agora sou eu sozinha em Cabo Frio cuidando da minha mãe e da minha tia de 91 anos. Minha irmã é médica, mora no Rio e vem apenas aos fins de semana. Eu, que era a doente da família, tive que virar, à força, a fortaleza.

FLAMENGO PARTE ESSENCIAL DA VIDA

– O Flamengo de 2019 foi parte essencial para que eu pudesse aguentar o tranco. Foi uma coincidência incrível esse ano mágico ter batido com meu ano trágico. Até o primeiro semestre de 2019, por morar distante, eu tinha o hábito de ir apenas a jogos grandes, até porque morando a 150km do Maracanã, envolve gasto com deslocamento e alimentação. Levamos minha mãe doente pra se tratar no Rio, no final de maio. Eu estava com ingresso comprado pra Flamengo x Corinthians pela Copa do Brasil. Não fui. Foi meu primeiro jogo assistido dentro de um hospital.

Um dos jogos que me marcou foi Flamengo 6 x 1 Goiás. Eu lembro exatamente de estar dentro do CTI com minha mãe no isolamento e eu assistindo pelo celular escondida dos médicos. Foi uma sequencia de jogos assim, e com a cabeça e esperança no jogo contra o Emelec. Tinha comprado ingresso antes da internação da minha mãe, mas não sabia se conseguiria ir. No dia do jogo, paguei alguém pra passar a noite com ela, e fui. Sozinha. Chorei igual criança, esqueci todos os problemas. Ali eu decidi que acompanharia aquele time no Maracanã, em qualquer circunstância, até o fim de 2019. Não só pelo time, que pela primeira vez em anos me fazia sentir algo de esperança, mas por mim, por ter certeza que o único lugar no mundo que me confortava e me desestressava naquele momento era o Maracanã vendo o Flamengo jogar.

Minha mãe teve alta 16 dias após esse jogo, depois de passar(mos) 55 dias internada(s). Voltamos pra Cabo Frio e eu passaria a ir ao Maracanã toda quarta e domingo que houvesse jogo. Nos jogos noturnos chegava em casa 3, 4 da manhã. Comprei o pacote de jogos do brasileiro, fui aos jogos das quartas e semi da Libertadores, gastei uma fortuna a cada ida, que está pesando no meu cartão até hoje, mas que não faço a mínima questão de somar. O que o Flamengo do segundo semestre fez pra minha alma, dinheiro nenhum paga. E só não fui pra Lima, porque minha mãe virou 100% dependente de mim, e não havia condição de me ausentar por mais de um dia, e por um fator emocional: 23 de novembro seria o aniversário de 50 anos da minha irmã.

RELAÇÃO COM O FLAMENGO

– Não lembro onde começou meu amor pelo Flamengo, mas lembro de na infância todo mundo dentro de casa praticamente definir isso pra mim. Não existia a menor possibilidade de escolher outro time, porque a família inteira é Flamengo. Na década de 80 me lembro vagamente, ainda não era tão apaixonada. Minha primeira lembrança clara de ser Flamengo e sentir isso foi na final do brasileiro de 92. Lembro de um tio saindo aqui de casa pra ir ao Maraca, e depois lembro exatamente onde estava quando caiu a arquibancada e ficamos preocupados.

A partir dali tenho mais lembranças, minha mãe costumava ouvir os jogos no rádio e eu ouvia com ela. O primeiro jogador que admirei foi o Charles Guerreiro. Mas em 95, com a chegada do Romário, meu amor explodiu. Eu já era muito fã do Romário (fã no sentido de ter como ídolo pop mesmo, de recortar jornais e revistas, ter pastinha, poster no quarto hehe). Juntou meu ídolo, com meu time. A partir dali me tornei daquelas adolescentes que trocavam qualquer programa de adolescente pra ver jogo do Flamengo. Mas curiosamente não tenho a menor recordação de quando foi minha primeira vez no Maracanã vendo o Flamengo. Acho q foi no período que a depressão iniciou, e eu tenho uma grande falha de memória desse período, por trauma. Passei um longo período saindo de Cabo Frio sozinha pra ir ao Maracanã, problema de ter amigos vascaínos. Cheguei a dormir na rodoviária, porque após jogos noturnos não dava tempo de pegar o último ônibus de volta pra Cabo Frio. Tinha que esperar até 5 da manhã. Fiz muito isso. Até que encontrei uma galera aqui de CF que costuma fazer excursões, e passei a bater ponto com eles. Às vezes eu costumava ser a única mulher no ônibus. Mas estava lá, firme e forte. Depois de 2019, só o tempo pra dizer como será minha relação física com o Flamengo. Ainda não sei se terei condições de acompanhar como o ano passado, a vida entrou numa encruzilhada, mas farei todo esforço possível. Sentimentalmente, eu não tenho a menor dúvida que o elo ficou ainda mais forte após 2019.

IDAS AO MARACANÃ

– Em 2019, quando entrava no estádio sentia um apagão do que eu estava vivendo. Sequer pensava na minha mãe internada, enquanto eu tava lá. Por isso foi tão importante ir a esses jogos. Eu precisava não pensar em tudo de ruim que eu tava pensando diariamente, e só no Maracanã isso acontecia. Era uma sessão de terapia de 90 minutos. Ficava nervosa, cantava, gritava, explodia, sorria e nem parecia que minha vida tava de cabeça pra baixo.

O 23 DE NOVEMBRO DE 2019

– 23 de novembro era aniversário da minha falecida irmã. Eu iniciei aquele dia com a sensação de que ela me daria um presente. Eu não sou de chorar na frente de ninguém, e tava acumulando sentimentos bons e ruins a medida que tudo acontecia na vida. Assisti ao jogo no quarto da minha mãe. Aqueles minutos finais de jogo foram a maior explosão de sentimentos que eu tive em anos. Chorava de soluçar incontrolavelmente, na frente da minha mãe, e da minha tia. Caí no chão do quarto no segundo gol e fiquei lá na mesma posição, chorando e incrédula por mais uns 30 minutos olhando pra TV.

Já me emocionei muito com o Flamengo, mas nada se compara àquele 23 de novembro de 2019. Era um grito tão entalado na garganta de todo torcedor, e somado a isso, todo problema pessoal do ano todo. Explodi. Ali mesmo sentada no chão, olhei pra minha mãe na cama e falei: vou pro Rio amanhã receber esses caras. Entrei em contato com uma galera que costuma ir aos jogos, mas todo mundo muito bêbado rs No dia seguinte acordei às 5h da manhã, pedi pra enfermeira ficar com minha mãe, fui sozinha pra rodoviária e peguei o primeiro ônibus pro Rio. Tava lá no meio daquela multidão na Presidente Vargas. Cheguei em casa à noite, toda arranhada, e um nojo de felicidade.

 

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NOME COMPLETO: Felipe Godinho (@gehfla_ e @felipegodinho10)

QUEM É O FELIPE

– O Felipe é um cara muito Rubro-Negro! rs Sou mais na minha, quieto (o contrário do que sou no @geh,eu sei rs), um cara muito família, que gosta das coisas simples, que curte um bom rock n roll, ir a igreja e não perde um jogo do Flamengo.

2019

O ano 2019 começou muito bom pra mim. Me converti, iniciei nas aulas de contrabaixo, fiz grandes amizades e pude voltar a me tratar da depressão e ansiedade, além de participar de um ministério da minha igreja que ajuda pessoas na mesma situação que a minha. No segundo semestre passei por umas crises de ansiedade e o Flamengo foi parte muito importante para que eu não tivesse recaídas mais fortes. Com todas as conquistas pessoais e esportivas,no geral o ano foi muito positivo.

FLAMENGO PARTE ESSENCIAL DA VIDA

Em 2016 perdi meu pai por causa de um câncer de pulmão. A partir dali fui tendo várias outras perdas, como ir morar em um lugar que não conhecia ninguém, término de um relacionamento de seis anos, desemprego, enfim, estava no fundo do poço e no auge da depressão. Então passei a ter pensamentos suicidas, não queria mais viver e não tinha expectativa de vida nenhuma mais. Foi então que o Flamengo ajudou a salvar minha vida. Como estávamos avançando nos mata mata da Copa do Brasil 2017 e Sulamericana, eu sempre adiava meus planos de me matar pra ver até onde o Flamengo chegaria. Chegou em duas decisões, e mesmo perdendo as duas, foi o tempo suficiente para que eu não cometesse aquele ato e buscasse ajuda, quando minha cunhada me ajudou e foi parte essencial na minha volta ao tratamento e na minha conversão.

RELAÇÃO COM O FLAMENGO

Minha relação com o Flamengo sempre foi muito intensa. Costumo dizer que ele tira o melhor e o pior de mim rs. Sou do tipo que larga família, namorada, amigos, de matar aula, não ir a festas, etc para assistir o jogo do Flamengo (não repitam isso em casa crianças). O Flamengo é parte da minha família, um amor sincero que eu não consigo descrever em palavras. Ele é motivo das minhas maiores alegrias como de umas das maiores tristezas também. Esse ano foi a celebração de todo esse amor com todas essas conquistas em vários esportes. Várias vezes no ano o Flamengo me fez ligar a caixinha de som com o hino no último volume.

O 23 DE NOVEMBRO DE 2019

Considero o dia 23/11/2019 o dia mais feliz da minha vida. Fazia muito tempo que eu não me sentia feliz do jeito que me senti naquele dia, toda a euforia, alegria e as loucuras que fiz, como ir pra rua no meio do temporal gritando e pulando rs. O dia 24 foi outro dia super especial,tive que ficar mais contido por estar na casa de um tricolor, mas a sensação era de que aqueles dois títulos em 24 horas era um sonho e logo eu acordaria. Vou lembrar pra sempre daquele fim de semana.

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One thought on “REPORTAGEM ESPECIAL: Em ano histórico, Flamengo ajuda a aliviar perdas, depressão e ansiedade

  1. André e demais integrantes do Ninho da Nação, parabéns pela matéria, sensacional!

    Muito legal o depoimento do Felipe e da Marcela, o Flamengo é para muitos o que foi para vocês, um motivo para continuar quando as coisas não estão indo bem.Sorte e sucesso aos dois e a toda a nação rubro negra.

    Das melhores matérias desse estimado blog.

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