Ninho da Nação

Carlos Andreazza: “A distinção da inteligência”

0 Flares Filament.io 0 Flares ×

Ótimo artigo do jornalista Carlos Andreazza, dessa terça-feira, em O Globo.

Confira:

“Há um projeto de Brasil – de esperança no país – no futebol do Flamengo; na maneira como joga este Flamengo. Não é exagero de torcedor; aqui falando um que ia longamente afastado, que havia anos abandonara o estádio, e que de repente se mobilizou, de todo capturado, pelo conceito materializado na forma como o time iniciou o segundo tempo da partida contra o Grêmio no Maracanã: vencendo por um a zero, em posição confortável para se classificar à final da Libertadores, mas atacando (e surpreendendo) para fulminar – e para fulminar com ímpeto e ordem, maestro absoluto das ações – como se precisasse ainda de mais quatro gols.

É espantoso. E eu simplesmente não posso não ver. Não tenho esse direito. Não tenho, se me pressinto ante algo raro, que intuo tomar corpo para a história. Seria irresponsável faltar à única ocorrência verdadeiramente extraordinária no Brasil de hoje se tal se dá, ao menos uma vez por semana, na cidade em que vivo. Este Flamengo é um acontecimento.

Falo de um campo que é sobretudo das ideias. Este Flamengo é uma ideia. Durará? Estaremos diante de um novo ciclo de dominação futebolística com impacto sobre o ambiente cultural e o convívio social? Não se vê algo parecido, não se tem uma tal chance de influência, desde o brilhante – e brilhante porque cerebral – São Paulo de Telê Santana; mas também de pensadores como Raí, Muller e Palhinha.

É evidente que se trata, a do Flamengo, de uma equipe muito bem treinada; e que, em boa parte, deve-se atribuir ao triunfo do método de trabalho de Jorge Jesus o fato de o grupo de atletas que comanda ter assimilado tão rapidamente a dinâmica da intensidade por meio da qual compreende o esporte. O homem tem enormes méritos. Estratégia nenhuma, porém, não uma de aplicação arrojada como a que desenha, prospera sem um conjunto de executores que – para além de níveis técnicos entre bom e ótimo – sejam também indivíduos com capacidade intelectual acima da média.

Este é o barato; o que faz a diferença. Este Flamengo é uma ideia original num país cujo pensamento se amesquinhou; num país, por exemplo, que, em 2014, apostou em Felipão para repetir 2002: uma busca que nem mesmo pretendia resgatar uma concepção de sucesso no passado, senão tão somente a marca, a memória, do título. É onde estamos. Como nação. Em Tite; ainda em Felipão. Talvez ainda em Parreira. Dunga?

O que distingue o jogo do Flamengo não é a simples e convencional reunião de talentos; mas a imprevisibilidade de uma reunião de talentos que pensam, sujeitos capazes de ler o tabuleiro desde dentro – e de se mexer, de girar, para mudar, para propor, até resultar. Não é somente a posse de bola, o controle da esfera; mas o ritmo que se imprime uma vez a dominando – a sedução do movimento, a atração do repertório, do vocabulário, a graça da conjugação perfeita, o charme de se manejar os tempos, de alongar a oração, para de súbito acelerar o fraseado, tornar aguda a sentença, e arrematar, e sentenciar. Não é apenas velocidade. Mas a velocidade exata. A velocidade econômica. A ciência de ser a própria regência. A hipnose do serpenteio, como aquela das palavras que se vão insinuando, costurando, estruturando, até o argumento inapelável, irrefutável – o bote. O Flamengo ataca como o movimento da maré, subindo, subindo, oprimindo, até que já não haja senão a água porta acima, o gol rede adentro.

Este é o verdadeiro sacode que o Flamengo dá no futebol brasileiro; e talvez mesmo, para além da bola, no debate público do país: o da inteligência, o do investimento radical na inteligência – o que pressupõe confiar, arriscar, ousar. Não é novidade entre nós. E por isso dói tanto mais. Porque faz tempo nos perdemos do cultivo das ideias, da educação para refletir, da solução que descortina o palco e, pois, o espaço para criar. Este Flamengo que formula e aplica, este Flamengo que é força de permanência, que parece se expandir – como um Gerson total, o melhor jogador brasileiro em atividade no mundo – para comprimir e ocupar todo o terreno, este Flamengo é um choque num país que raciocina como Fábio Carille e reage como Felipe Melo. Um país que voa – que só voará – como galinha. Mas ao qual bastaria se posicionar como Filipe Luís.

Jorge Jesus tem enormes méritos. Nenhum maior do que o de haver entendido a máquina de cérebros que tem em mãos – e as possibilidades que essa engrenagem formuladora lhe oferece. Aí está, pois, a mensagem de esperança que o jogo do Flamengo encarna e projeta sobre e para o Brasil: são brasileiros, mão de obra nacional, os pensadores que se concertam para domar o campo e progredir, seja onde for, e para impor – sob alcance raramente visto de concentração coletiva – uma visão mesmo de mundo; são brasileiros como Éverton Ribeiro, intelectual capaz de abrir uma América à frente num só toque na bola.

Serão campeões? Não sei. Educam? Sim.”

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *