Ninho da Nação

Imprensa paulista se rende ao Flamengo de Jorge Jesus

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Após a surra do Flamengo contra o Grêmio por 5 x 0, que garantiu a classificação para a grande final da Copa Libertadores contra o River Plante, dia 23 de novembro, em Santiago, a imprensa paulista derrete-se em elogios ao trabalho do treinador Rubro Negro, Jorge Jesus.

Os dois principais jornais de São Paulo destacaram capas inteiras em sua edição impressa.

O Estadão abordou a forma do Flamengo jogar e comparou com o carrossel holandês de Cruyff.

 

Confira na íntegra:

Tarado por esquemas táticos a ponto de passar a madrugada assistindo aos jogos até da Segunda Divisão, o técnico Jorge Jesus passa essa obsessão para os treinos do Flamengo. É chato e exige que o jogador repita a jogada uma dúzia de vezes. Amante da seleção brasileira de 1982, fã de Zico e discípulo do jogador e técnico Johan Cruyff, morto em 2016, ele vem criando seu próprio carrossel no Flamengo, um time que joga para a frente e nunca fica parado, a exemplo do que fazia a Holanda. O português dá enorme importância às questões táticas e técnicas, mas falha no relacionamento com os jogadores.

Jesus dá broncas homéricas nos atletas, gesticulando os braços longos e arregalando os olhos a ponto de o grupo murchar de cabeça baixa. É bruto. Mas esse método alucinado causa estresse e tensão com o tempo. Quando os resultados chegam, como nesta fase áurea do Flamengo, tudo são flores. Se eles não acontecem, a receita azeda. Por isso, ele é amado por muitos, mas odiado por alguns.

Em linhas gerais, esses são alguns traços do estilo do português de 65 anos que é finalista da Libertadores e líder do Campeonato Brasileiro. Tudo isso em sua primeira temporada no País. O Estado conversou com cinco jornalistas portugueses e também torcedores do Benfica que conviveram com ele durante sua passagem pelo clube. Por lá, ele é conhecido como JJ. “O sucesso no Flamengo não é surpresa. Ele imprime mudanças por onde passa. Isso é inegável. No Benfica, recolocou o clube na trilha dos títulos nacionais regulamente, apesar dos dissabores”, explica o jornalista David Carvalho, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP).

Jorge Fernando Pinheiro de Jesus dificilmente vai chamar um jogador para conversar para saber se ele está com problemas familiares. Não é um motivador, um psicólogo. Nem de longe faz o tipo paizão. Sua caricatura ficaria bem com uma farda militar. Mesmo com um jeito rude, ele consegue motivar os jogadores pelo perfeccionismo e ofensividade. É um excelente treinador. Os jogadores gostam disso e percebem que podem evoluir. Seus treinamentos são longos, quatro ou cinco horas. Tudo nos mínimos detalhes. O jornalista Nuno Martins, do jornal Record, usou a expressão “mestre da tática” para defini-lo.

Jesus não tem uma linguagem acadêmica ou diploma universitário e se define como autodidata. Ele vê muitos jogos, mas não lê muitos livros de futebol. Tem uma forma única de falar e não mede palavras, doa a quem doer. Mais de um jornalista o classificou como “intratatável”. No Brasil, tem mostrado um estilo mais light, evitando as “patadas”.

Vale relembrar uma história da época do Belenenses. Era um treino no estádio do Restelo em apenas metade do campo. No fundo, o famoso rapper americano 50 Cent ensaiava para um show no dia seguinte. O Mister, como gosta de ser chamado, começou a gritar para que o cantor interrompesse o ensaio cujo barulho atrapalhava o treino. Jesus gritava em português e o rapper não estava nem aí. Continuou a cantar.

Uma de suas influências assumidas é o estilo de Johan Cryuff, líder do carrossel holandês na década de 1970, um dos maiores ídolos da história do Barcelona e que ajudou a definir a cara do futebol moderno. Jesus absorveu com cuidado as lições sobre intensidade, aquele que diz que o jogador não pode ficar parado, tem de se movimentar sempre, marcando ou atacando.

Outro de seus capítulos preferidos fala de algo simples e, por isso, essencial: a ofensividade. Mesmo quando vencia por 5 a 0 a semifinal diante do Grêmio, ele parecia alucinado querendo mais gols. Para quê? É o seu estilo. Seu pensamento está sempre ligado no próximo passe, na continuidade da jogada, no que vem depois. Ele também exige que os atletas façam várias funções: atacante tem de saber marcar, zagueiro tem a obrigação de iniciar a jogada e acertar o passe. No começo da carreira, ele ficou conhecido como “Cruyff da Reboleira”, referência ao bairro onde treinava o modestíssimo Estrela Amadora.

Foi nessa época que começou a conquistar a admiração de jornalistas e torcedores por sua ousadia. Dentro e fora de campo. Suas declarações que moldam um estilo meio desbocado e viraram uma espécie de marca. Sua figura tem um quê de folclórica para os portugueses. Em um dos lances mais emblemáticos de sua carreira, ele mostrou três dedos para o técnico do Tottenham depois que o Benfica marcou o terceiro gol em um jogo da Liga Europa em 2014.

Em Portugal, ele se tornou respeitado depois de ter conseguido colocar o Benfica a ganhar títulos e a jogar finais europeias numa altura em que o time vivia em crise. JJ conseguiu reerguer o clube e torná-lo enorme outra vez.

Jesus é discípulo de Cruyff até a página 15. Os jogadores do Flamengo atuam em posições definidas. No chamado “Futebol Total”, expressão que define o jogo holandês, todos jogadores podiam fazer tudo, sem lugar fixo. Jesus prefere equipes mais equilibradas. Os atletas têm posição fixa. Ele valoriza a posse de bola, mas não vai dar chilique no banco de reservas se seus jogadores precisarem dar chutão. Ele exige passes rápidos e objetivos. Tem uma declaração interessante sobre seu ofício: acha que o treinador tem de ser tão criativo como os jogadores em campo. Por isso, adaptou conceitos do futebol total e vem criando seu próprio carrossel no Flamengo.

Uma provocação de Renato Gaúcho, antes da semifinal da Libertadores, cutucou um ponto fraco de Jesus. O técnico brasileiro lembrou que Jesus nunca havia treinado um gigante europeu. Ele teve uma chance. No auge da carreira, no Benfica, Jorge Jesus chamou a atenção de Atlético de Madri, Valencia e Milan. Recusou alegando que não tinha motivos para sair de Portugal. Os desafetos afirmam que ele recusou por não falar outras línguas.

Jesus mora sozinho em um apartamento no Rio e costuma sair para comer em restaurantes nos raros momentos de folga. No cardápio, peixes. Gosta de comer sozinho. À beira do gramado, ele mostra outra de suas “preferências” alimentares: chicletes.

O Mister é amante do futebol brasileiro há muito tempo e fã incondicional da seleção brasileira da Copa de 1982. Quando ainda era jogador em Portugal, ele se encantou com o time de Telê Santana e, especialmente, com Zico. Ele declarou ao programa “11”, de Portugal, que o camisa 10 foi o jogador que “mais ficou marcado em sua retina”.

ANÁLISE: David Carvalho – Rádio e Televisão de Portugual (RTP)
“Jorge Jesus bebeu muitos conhecimentos do modelo de jogo implementado por Cruyff no Barcelona, apesar de assumir um sistema tático com linha de quatro jogadores. Mas a capacidade técnica, tática e a capacidade de posicionamento do jogador são fundamentais para JJ. Ele trabalha esses e outros aspectos até á exaustão. É rigoroso no trabalho, em cada treino. E o jogador – que tem ambição – sabe que, mesmo sendo um treinador “chato”, ele vai melhorar a cada dia que passa. E ter a bola é importante, mas ela tem de circular com intensidade.

Ele corrige constantemente os seus jogadores. É muito exigente no que diz respeito à disciplina tática e todos os aspectos que envolvem o jogo. E isso por vezes acaba por criar saturação nos atletas e focos de tensão, em dados momentos. Mas no fim eles reconhecem que há poucos treinadores como JJ a torná-los melhores. O futebol está cheio de exemplos. Que o digam Pablo Aimar, Fábio Coentrão, Di Maria, Óscar Cardozo, David Luiz, Enzo Perez ou Pizzi… E agora, veja o que está a acontecer com Gabigol.

Não é surpresa o seu sucesso no Flamengo. Ele imprime mudanças por onde passa. Isso é inegável. No Benfica, recolocou o clube na senda dos títulos nacionais regulamente, apesar dos dissabores. E conduziu a equipe a duas finais da Liga Europa, que perdeu, contra Chelsea e Sevilha. No Sporting, teve impacto imediato, com a conquista da Supertaça”.

Mandamentos de Jesus
1. Não basta ganhar. É preciso dar espetáculo ao torcedor

2. O treinador tem de ser criativo como o jogador

3. É preciso ser intenso o jogo todo, marcando ou atacando

4. O jogo é para a frente: é melhor ganhar por 5 a 4 do que por 1 a 0

5. Jogador não precisa ser poupado de um jogo para render mais no outro.

Já a Folha de SP teve uma capa inteira do plano Rubro Negro de jogar bonito e virar um clube global, assinado pelo Paulo Vinicius Coelho:

Vinte estudantes brasileiros da Universidade de Coimbra reuniram-se num pub da cidade no final da noite de quarta-feira (23). Pelo horário português, a goleada do Flamengo por 5 a 0 sobre o Grêmio, que garantiu vaga na final da Libertadores, começou à 1h30 desta quinta (24). Havia dois gremistas, dois colorados e pelo menos 15 rubro-negros.

Parece ser por causa de Jorge Jesus, mas nesse caso não é. Arthur Almeida Aguirre vive em Oliveira de Azeméis, no norte de Portugal, há seis meses. Estuda Direito em Coimbra há dois.

Por mais que o técnico do Flamengo tenha espalhado paixão pelas cores vermelha e preta também na Europa, Arthur nasceu no Rio de Janeiro. Segundo ele, o encontro no pub reuniu paranaenses, catarinenses, cariocas, gaúchos e paulistas.

No Brasil, a quarta-feira foi de febre nos aeroportos. Do total de 63.409 pagantes no Maracanã, 13 mil rubro-negros chegaram de fora do Rio (20%). A mesma porcentagem que se calcula de estrangeiros em partidas de Barcelona e Real Madrid, pela liga espanhola ou Champions League.

Não se trata só de paixão pelo clube. “Estamos muito felizes por resgatar o orgulho e a esperança de dezenas de milhões de pessoas. Acho que mais do que isso, o Flamengo está mostrando ao Brasil que podemos jogar aqui um futebol bonito, de grande qualidade, sem deixar nada a dever aos grandes palcos do mundo”, diz o presidente Rodolfo Landim.

A estratégia passa pela adoção de um estilo de jogo agressivo, que esbarrava na escolha do técnico. “Não é estrangeiro, europeu ou marciano… Precisa ter a filosofia do clube”, diz Bruno Spindel, que compartilha com Marcos Braz a direção de futebol. Quem descobriu Jorge Jesus, contratado em junho? “Não vou entrar nesse mérito. Foi o Flamengo”, responde.

Dos clubes globais dos últimos 30 anos, dois tiveram em comum a estratégia de jogar em altíssima qualidade para cativar fãs pelo planeta: Milan e Barcelona. Se jogassem feio, não seriam globais, mesmo que Real Madrid e Manchester United não tenham o mesmo compromisso.

O que Spindel identifica como filosofia do clube é a insatisfação contínua e a ânsia de buscar sempre o melhor. A ideia é que, se parar, alguém atropela. “É buscar excelência em todas as áreas. Olha o que ocorreu com o gramado do Maracanã depois que assumimos a administração do estádio [em abril]. Com a mesma quantidade de jogos e sem a justificativa de que não é possível cuidar bem da grama”, diz o dirigente.

Essa busca por excelência uniu Jorge Jesus ao Flamengo. “Vim pela paixão. Se fosse pelo dinheiro, não vinha”, afirma o “Mister”, como é chamado dentro do clube.

Ele recebe pelo menos 10% a menos do que ganhava no Sporting, seu último contrato em Portugal. Menos ainda do que arrecadou no Al Hilal, da Arábia Saudita, e do que teria se aceitasse proposta do Newcastle, da Premier League. “Meu agente me disse que poderia ser eu no lugar do Frank Lampard”, afirma, em referência a uma sondagem do Chelsea, antes de assinar com o Flamengo.

Em maio, Jesus estava no camarote da diretoria do Atlético-MG em partida contra os cariocas. Negociou com o clube mineiro, mas apontou o dedo para a Gávea: “Eu queria um clube que me desse condição de vencer”.

Jesus chega todos os dias ao trabalho às 7h10. Na manhã seguinte à vitória sobre o Grêmio, já estava de volta ao Ninho do Urubu, no bairro de Vargem Grande, zona oeste do Rio, a aproximadamente 20 minutos do condomínio onde vive, na Barra Tijuca. Seu diferencial não é a dedicação aos horários, mas aos jogadores.

Ele pergunta pouco sobre a vida familiar, mas dá conselhos técnicos. Pediu a Gabriel que deixasse de ajeitar a bola antes de finalizar. Perde-se tempo. No primeiro gol contra o Grêmio, o atacante chutou forte de pé direito, sem ajeitar, embora seja canhoto. O treinador também mostra vídeos para que os jogadores analisem decisões erradas.

Técnicos portugueses, como Paulo Bento e Sérgio Vieira, passaram pelo Brasil nos últimos cinco anos, respectivamente por Cruzeiro e Athletico, mas Jorge Jesus não está no Flamengo por ser português.

Desde o início do processo de recuperação financeira, em 2013, o Flamengo busca sua identidade de jogo. Quer ser agressivo, incessante, cativante, sedutor, tudo o que foi na era Zico, mas agora numa época muito diferente, que exige profissionalismo em todas as áreas.

Do departamento médico, capaz de recuperar as fraturas de Rafinha, Diego e De Arrascaeta em tempo recorde, à análise de desempenho, que descobriu o zagueiro Pablo Marí na segunda divisão da Espanha.

O plano é ser um clube global. Hoje, a receita anual beira os R$ 800 milhões. Há dez anos, era de R$ 150 milhões e com dívida de R$ 750 milhões.

Atualmente, há 12 fontes diferentes de receita. Isso inclui a lei de incentivo para esportes olímpicos. Se o dinheiro não entrasse, o futebol teria de subsidiar o basquete. Seria um jogador a menos.

Globalizar significa contratar quem se deseja pelo dinheiro possível e manter jogadores revelados na base, como Reinier, 17.

Há quatro meses, o Flamengo pensava em vender o talento, se a proposta fosse boa. Se tudo andar no ritmo atual, o projeto será descobrir e manter um jovem craque por dois a quatro anos e trazer um grande nome que julgue mais interessante jogar no Brasil do que num time médio da Europa.

Jogando como o Flamengo está jogando, seria possível que até Pep Guardiola assinasse o projeto.

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