sexta-feira, 14 de junho de 2019

Entrevista: Alexandre Póvoa, ex-vice-presidente de esportes olímpicos do Flamengo


O ex-vice-presidente de esportes olímpicos Alexandre Póvoa, que durante seis anos esteve à frente da pasta no Flamengo, concedeu uma entrevista exclusiva para o Ninho da Nação.

Confira:

A temporada e as finais do NBB contra Franca

Inicialmente, tenho por obrigação cumprimentar a atual diretoria, na figura do Delano Franco e do Presidente Landim, por também terem feito parte dessa conquista, pela contribuição possível que deram desde janeiro em um time já formado e embalado (tínhamos acabado de conquistar o Super 8 no final de dezembro). Eu faço a minha parte de cumprimentar, não me importa o outro lado.

Na temporada de 2012/2013 quando assumimos (em situação muito diferente, com 4 meses de salários atrasados e péssimas condições de estrutura) e ganhamos o título na final contra Uberlândia, houve uma grande discussão sobre a quem “pertencia” o título, à diretoria anterior ou à diretoria que assumiu. Acho essa discussão uma tremenda falta de rubro-negrismo. O campeão é o Flamengo, o que mais importa! Somos hexacampeões, disparados os maiores vencedores. Todos sabem da minha parceria com o Marcelo Vido, grande profissional, nos últimos anos na construção do nosso basquete. Que a história nos julgue, porque história para contar é que não nos falta.

A temporada foi desafiadora. Não é fácil fazer a mudanças radicais que fizemos, trocando a Comissão Técnica e trazendo sete jogadores (somente Varejão, Marquinhos e o Olivinha ficaram).

Decidimos isso porque era hora de buscarmos um basquete mais moderno e mais físico. Nesse sexto NBB que conquistamos, fomos a melhor defesa do campeonato e o time com maior número de rebotes, exatamente o que projetamos quando formamos o elenco. Um grupo muito forte e com uma rotação altamente equilibrada. Na verdade, as críticas foram pesadas e não acreditaram na gente quando perdemos o Sul Americano. Mas eu sempre repeti que esse grupo, com pequenos ajustes, é o de maior potencial após o time campeão de tudo de 2014. Podemos chegar muito mais longe. Estou muito confiante que iremos lutar pela Liga das Américas nesse ano com grandes chances de vencer.

Quanto às finais, nenhuma surpresa. Franca montou um grande time também e poderia ter ganho até porque tinha a vantagem do mando de quadra. Só quem já jogou em Franca sabe o clima altamente hostil a ser enfrentado. Pressão, ameaça. Enfim, é difícil ganhar lá e vencemos dois títulos lá dentro. Não é pouca coisa. O time deles era mais jovem, mas nossa equipe sobrava em experiência e unidade.

Das 5 conquistas recentes da NBB, foi a segunda (a primeira foi em Marília contra o Bauru) que ganhamos fora de casa, sabor especial. Não sei se foi a mais difícil. No NBB 15/16, tivemos um “match point contra” na semifinal em Mogi (onde a pressão é semelhante), ganhamos por 3x2 com muita raça, e depois vencemos de Bauru na final também por 3x2. Os jogos únicos contra Uberlândia e Paulistano nos dois primeiros NBBs conquistados também foram tensos, porque não havia margem para erro. O outro foi aquela varrida em Limeira e Bauru, foi menos nervoso.

Apenas um registro negativo. Um absurdo completo, no quarto jogo do playoff final, quando a diretoria do Flamengo desrespeitou o basquete e antecipou o jogo de futebol contra o Fortaleza para às 16 hs (com a nossa partida marcada para às 14:30 hs no Maracanãzinho). Todos sabemos que a mudança de campo para o Engenhão era inevitável, mas a modificação para 16 hs foi uma escolha do Flamengo que queria ganhar algumas horas de descanso para o jogo contra o Corinthians.

Com todo o respeito eu, se estivesse lá, iria lutar loucamente para reverter isso. Já aconteceu algumas vezes a mesma situação nos meus 6 anos de gestão, mas nunca em uma final. Sinceramente, tal desrespeito seria motivo até para pedido de demissão, pelo descaso total com o basquete e com os esportes olímpicos. Mas respeito a posição de cada um.

A volta ao Maracanãzinho foi fantástica e veio no momento correto. Tenho certeza que teríamos lotado o ginásio com 11 mil pessoas naquele quarto jogo. Uma presença menor de público e natural menor pressão poderia ter custado a perda do título.


A briga pela contratação do Varejão

A contratação do Varejão foi o início desse processo que culminou na conquista do NBB 2018/19. O primeiro contato ocorreu em agosto de 2017, mas naquela época não houve interesse do atleta em vir para o Flamengo, por ainda esperar uma oportunidade na NBA.

Em outubro do mesmo ano, o empresário do Anderson nos liga, dizendo-se interessado em fazer um projeto para trazer o Varejão para o Flamengo. Ele afirmava que um jogador do porte do Varejão, se retornasse ao Brasil, só poderia ser para o Flamengo. Era o jogador mais carismático do Brasil no exterior, se juntando à marca esportiva mais famosa do Brasil.

O parto foi longo, discutimos mais três meses, até que em uma tarde de dezembro passamos quase umas três horas negociando por telefone os detalhes finais do contrato. Eles sempre afirmaram que não havia proposta de Franca. Tanto o empresário quanto o Anderson sempre foram corretíssimos conosco e em janeiro o atleta estava se apresentando, com um contrato de um ano e meio.

O começo foi difícil, dado que o Anderson estava fora de ritmo após quase um ano sem jogar, apenas treinando. Na reta final da primeira temporada, ele e o próprio time não foram bem. Já na atual temporada, diria que ele foi decisivo para o título. Muita presença e um cara muito bom de vestiário. No sistema agressivo de rotação do Gustavinho, nunca reclamou, sempre foi extremamente profissional, e foi encarnando aos poucos a mística da camisa do Flamengo.

Evidentemente, é um jogador que não é barato e é normal a avaliação custo/benefício ao final de um contrato. Porém, infelizmente, durante as eleições, falou-se muita bobagem em relação ao “salário dele comparativamente ao investimento e à remuneração dos atletas de outros esportes”. Para criar cizânia mesmo. Primeiro, é uma declaração ignorante, porque desconsidera que o dinheiro do basquete vem de leis de incentivo e patrocínios próprios que não pode ser aplicado em outras modalidades. Em seguida, trata-se de uma falta de respeito com um atleta campeão da NBA e uma pessoa de alto nível. Faz-se de tudo para ganhar uma eleição, espero que, independentemente do futuro, ele seja tratado com o devido respeito que merece.


Após dois anos sem conquistas, foi necessária a reformulação do elenco, iniciando pela comissão técnica. Como se deu esse processo, culminando com a contratação do Gustavo de Conti?

O processo foi duro porque começou com a saída de uma pessoa muito correta e um ótimo profissional - José Neto. Foram seis anos de convívio sincero e próximo com aquela Comissão Técnica, que havia ganho 4 NBBs. Mas era hora de trocar, o ciclo havia acabado e o desgaste (sacramentado na derrota por placares elásticos na semifinal contra Mogi no NBB 2017/18) era enorme.

Os dois lados decidiram que era melhor não renovar o contrato. Torço demais pelo Neto na Seleção Brasileira feminina.

Se queríamos mudar o estilo de jogo do Flamengo para algo mais veloz e físico, passamos a procurar um técnico. Conversamos com três, mas a nossa preferência sempre foi o Gustavinho. Não fizemos proposta a ninguém que não fosse ele (apareceu um monte de oportunista afirmando ter recebido alguma oferta do Flamengo).

Enfrentamos uma oura questão ética: Precisávamos de um técnico com urgência, porque tínhamos que formar um time. O Gustavo estava disputando a final pelo Paulistano contra Mogi. Não poderíamos esperar, mas não queríamos de forma alguma atrapalhar o Paulistano. Eu e o Marcelo pegamos um avião às 6 hs da manhã no Santos Dumont e marcamos um encontro às 7:30 hs com ele em uma padaria perto do aeroporto de Congonhas. Conversamos por mais de uma hora e ali a sinergia ficou clara. Dois dias depois fizemos uma proposta e mais uns três dias, após o acerto de alguns detalhes, já tínhamos um técnico.

A outra situação: Franca, que havia perdido a semifinal para o Paulistano naquele ano, estava cheia de dinheiro por causa do SESI e atacando agressivamente o mercado. Para se ter uma ideia, vários jogadores nos relataram que Franca fazia uma alta proposta e, no dia seguinte, um dirigente de lá (que nunca vou dizer o nome) estava pessoalmente indo na casa dos jogadores para fazer pressão para fechar. Queriam ganhar de qualquer maneira. Chegamos a perder dois jogadores que estávamos interessados por conta dessa agressividade de Franca.


A dificuldade na renovação de Marquinhos, que quase foi parar em Franca?

Dentro da agressividade que Franca estava no mercado, o Marquinhos era o alvo principal. Quando fomos conversar com o atleta, ficou nítido que ele já tinha a proposta de Franca (e o dirigente já estava esperando na porta da casa dele, rs). Não tínhamos tempo literalmente. Tínhamos feito uma proposta certamente abaixo da de Franca. Travamos um intenso debate internamente e concluímos que a importância da permanência do Marquinhos (e a não ida dele para Franca) ia além do campo técnico, representaria uma demonstração de força do Flamengo e facilitaria outras negociações. Tivemos que fazer realocações no orçamento para cobrir a proposta. Valeu muito a pena, mantivemos o nosso melhor jogador e não reforçamos o nosso principal adversário. Mas foi por pouco, talvez por 24 horas.


O Flamengo tentou Rafael Luz, Ricardo Fischer e David Cubillan, até acertar com um armador de alto nível: Franco Balbi. Como se deu essa contratação, era realmente o plano A?

Primeiro, parabéns ao Nico: MVP da Liga Espanhola e Real Madri. Muito orgulho de o Flamengo ter sido parte fundamental nessa trajetória.

É um jogador fora de série e é difícil substituí-lo. Até porque todos que vieram eram comparados a ele. Mas é bom lembrar que o Rafael Luz foi campeão da NBB. O Fischer foi uma contratação mal feita porque não nos cercamos dos cuidados médicos que deveríamos. E o Cubillan já veio no final de um ciclo desgastante da Comissão Técnica.

Mas a posição de armador é um desafio mesmo. Gostamos da escola argentina e queríamos juntar experiência e qualidade em um armador clássico. O Franco, mesmo em um time de menor expressão, havia sido escolhido como melhor armador da Liga Argentina da temporada 2016/17. Estávamos de olho nele desde a temporada anterior. Acho que ele pode crescer muito ainda, a adaptação dele foi rápida, mas pode se aprofundar muito mais. Se vai virar um novo Laprovitola? Não sei. O Franco é o Franco, o Nico é o Nico, sem comparações. Só acho que ele tem potencial para subir ainda mais o seu jogo e ajudar o Flamengo, precisamos de seus pontos e de suas sensacionais assistências.

Uma curiosidade: Quando já estávamos no final das negociações com o Balbi, nos ligou um empresário nos oferecendo o Donald Sims , um armador bem mais badalado que estava no San Lorenzo. Era uma oportunidade, Mesmo considerando os diferentes preços, decidimos que era hora de apostar no Balbi e fechamos o contrato no mesmo dia, com a concordância minha, do Vido e aval do Gustavo.


Como o Flamengo formou o resto do elenco? 

Sabíamos que precisávamos de forte rotação pelo jogo físico a ser implantado pelo Gustavo. O maior exemplo foi a nossa troca intencional de pivôs - O JP Batista, que foi simplesmente MVP do campeonato, talvez não se encaixasse no jogo mais veloz e agressivo. Achávamos que o Rafael Mineiro tinha mais essa característica, por isso o trouxemos. O Nesbitt (extremamente regular), o Deryk e o Jonathan (para desafogar o Marquinhos) eram jogadores de confiança do Gustavo e vieram de um Paulistano campeão. Estávamos observando o Kevin Crescenzi, que atendia bem as características mais físicas e de defesa que desejávamos. O David Rosseto foi o último a ser contratado, pela juventude, excelentes temporadas no Basquete Cearense e para revezar com o Balbi (várias vezes jogaram juntos também). Juntando Varejão, Marquinhos e Olivinha, ficamos com um time altamente versátil e também físico, com dois armadores natos, quatro alas e quatro pivôs, com vários jogadores exercendo duas funções pelo menos.


O que teria feito de diferente nesses anos de Flamengo?

Sem dúvida, um ponto que ficou falho foi no desenvolvimento das categorias de base. Não nos conformávamos com o fato de que o Flamengo não formava ninguém, apesar de ganhar tudo a nível estadual e ficar em posições intermediárias no âmbito nacional. Tentamos vários modelos que durante cinco anos não deram certo. Com a chegada do Gustavinho e do Diego Jeleilate, profissionais de fora, fizemos várias modificações de metodologia e de profissionais, tenho convicção de que em alguns anos as categorias de base voltarão a servir as equipes adultas, fazendo jus ao lema de que “Craque o Flamengo faz em casa”.

No profissional, talvez um erro foi não ter trocado a Comissão Técnica 6 meses antes, por conta do enorme desgaste que já estava claro. No mais, tudo foi feito com muita paixão e profissionalismo (parecem inconciliáveis, mas não são). Ganhamos 5 NBBs, 5 Cariocas (um ano não foi disputado), uma Liga das Américas, um Mundial, 5 jogos contra equipes da NBA e um Super 8. Independente dos títulos, deixamos muitos amigos e, sobretudo, reforçamos mais do que nunca a alcunha de Orgulho da Nação.

Muitos me perguntam qual foi o título mais importante dessa lista. Não vou entrar no lugar comum de dizer que “foram todos” ou o mais lógico – “o Mundial”. O título mais fundamental para essa trajetória foi o primeiro, o NBB 2012/2013, vitória contra o Uberlândia. Sabem por quê? Se a gente não tivesse ganho aquele título, o basquete do Flamengo seria descontinuado, pelo menos em alto nível. Havia tido cortes em outros esportes e a orientação era de que o basquete fosse o próximo. O título nos salvou e nos permitiu chegar à todas as conquistas posteriormente.

Como diria Phil Jackson (frase que meu amigo Marcelo Vido sempre repete), “tão importante quanto o resultado, é a jornada”. E a jornada foi linda, emocionante, muito mais que eu merecia.

Desejo boa sorte à nova diretoria. O sarrafo ficou bem alto, mas se derem liberdade ao Vido e ao Gustavo de continuarem o trabalho iniciado, esse time pode ir longe.

Quanto a mim, muito obrigado a todos pelas críticas e elogios, que só ajudaram ao FlaBasquete. Saibam que eu lia cada um deles. Desculpem qualquer coisa. Um até breve, estarei sempre por perto.

4 comentários:

JLD disse...

Grande entrevista, parabéns. Espero ainda ver Póvoa como presidente do Flamengo.

Anônimo disse...

Nao fez nada pelo basquete feminino!

Anônimo disse...

Obrigado por compartilhar as histórias conosco!

Abraço,

Wallace

Rodrigo Quintela disse...

É o maior expoente, disparado, da nova geração de dirigentes rubro-negros. É claro, aberto e não tem o ranço da maioria dos dirigentes. Não sei a idade dele, mas muito em breve o Flamengo merecia ter o Póvoa como presidente. Ganharíamos tudo no futebol como ganhamos no basquete, em um legado espetacular para todos os esportes olímpicos.