quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Libertadores 2018: Dossiê River Plate, por Joza Novalis

Confira a análise completa sobre o rival do Flamengo, na estreia da Libertadores dessa quarta-feira, por Joza Novalis.

Confira:


River Plate rival do Flamengo na data de hoje, como está? Um lixo: bom deixar claro. E o que isto significa? Depende. Muita coisa, Ou nada. Mas por quê? Ora, pois! Basta olharmos para o elenco do River para pensarmos...que luxo! O fato é que um time de futebol sairá desta dualidade, hoje à noite. E o que ele levará para campo é tão imprevisível quanto ao gigantismo que porta. E se isto parece assustador, joguemos lenha na fogueira do assombro: o inimigo da esquadra argentina não é o Flamengo; o inimigo é invisível, o Rubro-Negro, só uma parte dele.

Luz sobre o momento do River 

A equipe dirigida por Marcelo Gallardo ocupa a 20ª posição da tabela da Superliga, que é composta por 28 equipes. Das 17 partidas que disputou, venceu cinco, empatou quatro e sofreu oito derrotas. Seu ataque marcou 20 gols e sofreu 23; sua defesa levou gols praticamente todos os jogos, exceto nas vitórias por 2x0 contra o Unión, pela 12ª rodada, e contra o Olimpo, pela 14ª, e por 1x0 contra o Temperley na rodada inicial da Superliga, ainda em 2017. No momento, o Millo está a 24 pontos do líder e grande rival, Boca Juniores, e a preocupação já não é com o título. Preocupação suprema é a de chegar entre os seis primeiros de modo a conseguir uma vaga na próxima libertadores. Fácil? Bem, por enquanto parece que não, pois são nove pontos de distância do sexto colocado, o Huracán. Além disso, para piorar, a equipe dirigida por Gallardo está a oito pontos do Colón, o 11º colocado e última equipe da tabela na zona de classificação para a Copa Sul-Americana.

Pouco? Bem, fora de casa já são seis derrotas consecutivas. Para se ter uma ideia do feito, isto não ocorria no campeonato argentino há 78 anos. Como visitante, a última vitória foi em setembro, quando superou o San Martín, em San Juan, por 3x1. Na ocasião, Gallardo colocara em campo uma equipe praticamente reserva, pois poupava jogadores para o confronto de volta contra o Wilstermann e que levaria sua equipe às semifinais da última edição da Libertadores de América.

Quando o River joga alguma coisa, como joga? Quem sabe? 

Ao menos em termos de esquema, nem Gallardo consegue responder. O técnico já usou desde o 3-2-2- 3, praticamente excluindo laterais, na partida contra o Wilstermann, a inúmeros outros, como 4-3-2-1, 4-4-2, 4-3-1-2, 4-2-2-2 entre outros. Mas se tudo depende do momento, nem tudo depende do rival. Explicando: Diante de dificuldades, o River tende a pensar o rival não por se preocupar com os perigos que ele possa lhe causar, mas por descobrir formas de como vencê-lo melhor. Arrogância pura de um clube gigante que acredita haver somente um rival com sua estatura na América do Sul: o Boca Juniors. Duas notas sobre o caso. Primeira é que o Boca pensa a mesma coisa. Segunda, é que a mesma postura nosso clubes costumam, em regra, praticar. E em parte o futebol não evolui por aqui porque os pequenos, médios e grandes (exceto Boca e River) da América do Sul espanhola seguem nos olhando de forma atenta enquanto nós só construímos uma dimensão mínima sobre eles quando os encontramos dentro de campo.

Mas vejamos pelo lado positivo. Se para o River o Mengão é mais um empecilho a ser superada rumo ao caneco da competição, cabe saber tirar vantagens disto, se enquadrar na perspectiva do Millo, mas, sobretudo, não gerar enquadramento para o foco dos argentinos. Ser visto como uma mera pedra no caminho de alguém tem lá suas vantagens. No momento, ainda mais, pois mesmo agora a equipe argentina não está muito atenta à esquadra carioca: foco é todo em si mesmo e na tentativa de matar o que possa ser o seu inimigo invisível.

O esquema no Rio será um 4-3-1-2, com os seguintes intérpretes: Armani; Montiel (Mayada), Martínez Quarta, Maidana, Saracchi (Casco); Enzo Pérez, Leonardo Ponzio, Bruno Zuculini; Juna Fernando Quintero; Nacho Scocco e Lucas Pratto.

Dúvida somente acerca de quem vai ser o enganche, já que Pity Martínez, lesionado, não atuará. Juan Fernando Quintero ou De La Cruz pode ocupar a vaga do pequeno “menino mágico” de Bajo Belgrano. Quintero é um monstro de jogador, mas ainda se adapta ao novo país, clube e comissão técnica. Enquanto isso, seu futebol vive de “brilharecos”. Sim, alguns deles tão decisivos que chegam a assustar. Mas embora não cave buracos em campo para se esconder, o meia passa muito tempo desaparecido na superfície do campo. De La Cruz não porta a mesma magia do colombiano, mas se notabiliza por unir força, condução e bom passe em velocidade. Mas ao contrário de Quintero tende, por vezes, a considerar excessiva a responsabilidade jogada às suas costas. Além disso, é mais fácil de ser anulado do que Juan Fernando.

Atuar com um enganche é traço decisivo da personalidade do River. Porém, Gallardo tem se notabilizado por reduzir a responsabilidade da criação que tradicionalmente fica muito a cargo deste jogador. Sendo assim, os laterais atuam praticamente como alas. Tecnicamente eles são tão habilidosos quanto quaisquer daqueles que atuam do meio-campo para frente. Portanto, a pressão tende a ser alta e de face dupla: tem quantidade e qualidade. Pensando exclusivamente no 4-3-1-2, diríamos que enquanto persiste um equilíbrio possível ele se transforma no 2-3-1-4. No desespero, numa espécie de 2-2-1-5 ou coisa parecida. Mas isto quando a equipe atua diante de seus torcedores. Na partida de hoje, nem tanto. Ponzio e Zuculini atuarão como um dobre 5 defensivo, enquanto Pérez, o camisa 8 do trio, se permitirá avançar um pouco, embora somente na boa.

Montiel ou Mayada, na lateral direita e Saracchi ou Casco na esquerda, o que podem representar? Um erro. Todos são laterais com características ofensivas. Ou seja, se Gallardo deseja segurá-los no setor defensivo não terá facilidades para tal, pois não sabem marcar. Jeito é o Flamengo abusar de jogar pelos lados do campo. Mas se tiver de fazê-lo que o faça com prudência e sabedoria, pois Zuculini ficará atento a bolas perdidas pelo ataque rubro-negro e se elas chegarem aos seus pés, o passe preciso vai ser não apenas o desafogo da equipe de Gallardo, mas também a construção do jogo ainda antes da faixa central.

Nacho Scocco é dos jogadores mais sóbrios na equipe argentina. Pratto ainda caça borboletas, ou, dito de outra maneira, ainda procura pelo espaço correto do campo por onde possa atuar. Para um defensor atento vale sempre a dica: se um jogador está perdido, não o perca de vista, por certo. Mas convém tomar cuidado para não se perder na partida juntamente com ele. Ou seja, o olhar sobre Luccas Pratto pode ser de longe, de média distância ou de perto; sobre el Nacho é olhos nos olhos. 

Tudo resulta em pressão e leva à intensidade. Mas qual? Ou, “a força da camisa entra em campo?”

Ninguém entende o que se passa com o Millo. Contudo, a gota que entona o copo não parece ser gerada na competição local. Ela estaria na Libertadores e pode não ser transparente, mas rubro-negra. Possível problema para o Fla está no fato de que tanto jogadores quanto comissão técnica parecem entender este fato. Afinal, para Gallardo: “O vento que sopra contra nossa equipe é preciso ser afrontado de frente. E a partida contra o Flamengo, na quarta, será o momento decisivo para tal”, Muñeco Gallardo, momento depois da última derrota para o Velez Sarsfield por 1x0.

Falta de grana? Longe disso. Foram 43 milhões de dólares em reforços nas duas últimas janelas e a chegada de 11 reforços. Uma grana alta gasta apenas em dois goleiros, dois defensores, quatro meias e três atacantes. De todos eles, somente Armani se converte no maior acerto: é o único que convence, por hora. Pinola, Pratto e Pérez estão mal, não convencem e não justificam suas contratações. Do que funcionava antes, tínhamos um meio-campo com Nacho Fernandez, Ponzio, Rojas e Pity. Nacho e Martínez perderam sintonia e parecem desconhecer os espaços que cada um percorre na cancha. Em tais momentos, Fernandez compensa um pouco ao virar um bom marcado. Problema é que melhores que ele sentam no banco de reservas. Pior ainda no caso de “el” Pity, que some da partida. Pelo caráter de sua personalidade, quando isto acontece ele tende a se intimidar, o que o leva a falhar nas escolhas mesmo nos poucos momentos em que a pelota chega aos seus pés. Rojas ocupa o setor esquerdo e, no momento, bate cabeça sobretudo com o ala.

Mas o problema maior foi de planejamento. Alário era um nove que resolvia. Pratto não é este jogador, é diferente, embora útil e muito acima da média. Scocco ocupa seu lugar, e escancara dois problemas. Também ele não se parece com Alário, mas com Pratto. Além disso, o ex-jogador são-paulino é o quê? Um extremo pela esquerda do campo? Ora, neste caso ele tampouco possui as características de Driussi. Jeito qual é? Quem sabe? Mas talvez fosse o caso de mandar um deles para o banco de reservas. Problema é que Gallardo não entende que certos testes precisam ter hora marcada para acabar. Mas o Muñeco tem culpa? Sim, pois no River, ao contrário do que acontece por aqui, quem define a contratação de um jogador, não é o departamento de futebol, mas o técnico. Foi o treinador do River quem levou o nome de Lucas Pratto para os dirigentes. Erro grave? Da missa, contudo, só a metade. Foi o mesmo Gallardo quem levou, depois, o nome de Silvio Romero para o departamento de futebol. Romero pode ser um 8, um segundo atacante ou um falso nove, mas também não é um jogador com as características de Alário e tampouco com as de Sebastián Driussi. Se a mudança de esquema era o que estava na órbita, ela deveria ser processada, em treinos, bem antes dos reforços chegarem, mesmo antes do fim do ano; o que não aconteceu. Ou seja, uma fortuna foi gasta de maneira pouco pensada, o que contrasta com a eficiência na gestão anterior de recursos que redundou numa liquidez ímpar na história do clube argentino.

Dentro de campo a criatividade sumiu. A equipe tem sérias dificuldades na distribuição da bola, com poucas opções claras de passes, pois as linhas não são claras para o portador da bola. Disto resulta decisões erradas ou insuficientes. A falta de ideias para romper linhas inimigas gera o toque de bola esvaziados de expetativas. A previsibilidade salta aos olhos dos marcadores, que bloqueiam facilmente as tentativas de construção de jogo ou os poucos ataques que delas resultam. Se há um grave perigo para a essência do jogo propositivo é a presença nele da desordem. Ela desorienta as ações nos momentos da necessária recomposição. Isto é precisamente o que acontece atualmente com o rival do Flamengo. Dentro disso, posse de bola quer dizer muito pouco, pois basta apenas uma delas perdida na fase ofensiva para que seus rivais o consigam golpear com um contragolpe fatal.

Se tais problemas parecem impossíveis de serem solucionados, ao menos a estreia do River ocorre fora de casa, onde o jogo especulativo tende a ser mais eficiente do que o seu contrário. Claro que neste contexto o Flamengo pode tirar vantagens, pois encaixará com mais facilidade uma pressão sobre os argentinos. Porém, uma coisa é pressionar um Boavista, a outra fazê-lo contra um rival do quilate de um River Plate. Ocorre que se há um traço positivo na adoção do jogo especulativo ele está precisamente na observação, da equipe que o adota, sobre quem o pressiona em seu campo de defesa. E o caráter do olhar de jogadores de um time pequeno sempre é menos apurado do que aquele que portam os atletas de uma esquadra de porte.

Intensidade não falta ao River. Problema é o seu caráter. Sobra sangue nos olhos, mas ninguém sabe como canalizá-lo para o futebol propositivo que está no DNA da equipe. O esquema não ajuda, o desentrosamento tampouco. Algo precisa dispará-lo e isto pode contudo aparecer na estreia contra o Flamengo. Trata-se do tal “inimigo invisível”. Na falta de uma configuração sobre o que ele possa ser ao menos vale uma caracterização qualquer.

No momento, de duas semanas para cá, ela tem se construído no discurso de que o mundo está contra o River, que perseguido caminha só, amparado apenas na sua tradição. Conversa? Vão nessa! Grandes ídolos do passado, que sempre palpitam demais canalizam suas observações à necessidade da equipe se reconectar com sua história e levar esta alma de gigante para o jogo. Uma alma gigantesca que não merecia, por exemplo, os prejuízos que a arbitragem tem praticado contra ela. E para tal nada como a péssima arbitragem Jorge Baliño, que fez algo raro: errou e prejudicou a equipe de Gallardo.

Era tudo o que o elenco millonario precisava para atribuir um sentido à intensidade que praticam em campo. O inimigo que era invisível ganha corpo agora no vento que sopra contra e que atenta gravemente à estatura e “dignidade” do clube. E “O vento que sopra contra nossa equipe é preciso ser afrontado de frente. E a partida contra o Flamengo, na quarta, será o momento decisivo para tal”. Este é o cambaleante e perigoso rival que o Rubro-Negro vai recepcionar e tentar superar na noite de hoje? Possível? Quem sabe?

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