terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Alexandre Póvoa - Mensagem de final de ano

O vice-presidente de esportes olímpicos, Alexandre Póvoa, prometeu uma explicação sobre o atraso salarial do time de basquete e a queda de rendimento da equipe, e aqui está, seu texto enviado ao blog:


Caros amigos dos blogs rubro-negros,

2014 foi um ano de ouro para o basquete rubro-negro. Ganhamos simplesmente tudo na categoria adulta, do Deca Estadual ao Campeonato Mundial, passando pelo bi da NBB e a Liga das Américas. Além disso, fomos a primeira equipe latino-americana a ser convidada a participar de três partidas contra equipes da NBA em uma pré-temporada, sonho de qualquer amante do esporte. Em nome do Flamengo, gostaria de agradecer aos blogs por toda a cobertura e força ao esporte olímpico e, em especial, ao “Orgulho da Nação”.  Saibam que vocês foram fundamentais nesse processo, tanto na divulgação como nas críticas que fazem com que melhoremos o nosso trabalho em prol do nosso clube. Em 2015, vamos ter muito mais, não somente no basquete, mas em outros esportes também, podem aguardar coisa boa!

No entanto, nos últimos três meses, desde que voltamos dos EUA, alguns problemas têm nos atingido, com repercussão negativa em mídia e entre a torcida. Sinto-me na obrigação de esclarecer alguns pontos. Primeiro, cabe ressaltar que consideramos normal e até positivo o “aumento dos holofotes”, já que somos campeões de mundo. Não é todo dia que se ganha do campeão europeu de basquete, que tem um orçamento pelo menos quatro vezes maior que o nosso. Em segundo, por termos vencido tudo nos últimos dois anos, o Flamengo tornou-se “o time a ser batido no basquete” por todos, pelo menos na América Latina. É normal que a sequência de títulos e vitórias incomode aos outros, faz parte da vida de vencedores.

Veio, então, a sequência de contratempos nos últimos tempos – a interdição do Tijuca T.C. (com a realização de um jogo com portões fechados e o cancelamento de outro); o descaso das autoridades na ajuda ao processo de construção de nossa arena; o atraso, por conta de burocracia, do depósito de importante verba de lei de incentivo e o consequente atraso de dois meses de salários; o episódio lamentável do jogo que perdemos em Uberlândia, onde fomos punidos com nove faltas técnicas, sendo oito impostas pelo mesmo árbitro; e, para encerrar o ano, a derrota em Macaé, na partida em que o adversário conseguiu a proeza de converter 5 pontos nos últimos 4 segundos e nos vencer. Enfim, depois das bonança, veio a tempestade e ela veio pesada. Mas valeu muito a pena para abrir os nossos olhos e ver que a vida continua, dura como sempre foi.

Os grandes vencedores são aqueles que conseguem superar cada obstáculo novo que aparece. Não precisa ser um analista de basquete para perceber que nossa equipe, depois de disputar os cinco jogos mais importantes da história do basquete do Flamengo (duas finais do Mundial e os três jogos da NBA), caiu muito de produção. Isso já seria natural, mesmo se não tivéssemos atravessado tantos problemas nos últimos três meses. Olhando a história do Flamengo, lembro que, em 1981, quando ganhamos a Libertadores e o Mundial de futebol em Tóquio, não conquistamos o Brasileiro naquele ano e só vencemos o Carioca no sufoco, após termos sido derrotados pelo Vasco nos dois primeiros, no terceiro jogo (o do famoso “ladrilheiro”) do Carioca. Nos dois anos seguintes, ganhamos dois Brasileiros, mas perdemos os dois Cariocas e as duas Libertadores. Não é fácil manter a motivação e a equipe no mesmo nível o tempo todo

Além disso, no caso do basquete rubro-negro, há um fator objetivo inquestionável: Enquanto todas as outras equipes se preparavam fisicamente para a temporada inteira, nós estávamos jogando contra o campeão europeu e times da NBA. Além disso, tivemos 4 jogadores titulares chegando do Mundial de Seleções (dois do Brasil e dois da Argentina) e emendando os jogos. Portanto, fomos obrigados a fazer nossa pré-temporada física já com a NBB em andamento, o que naturalmente atrapalha o rendimento dos jogadores. As pernas e os braços não funcionam tão bem com o trabalho pesado, quem já foi atleta conhece esse fato.

Mas é claro que a imprensa e parte da torcida não querem nem saber disso e ouvimos todo o tipo de críticas nos últimos três meses acerca do rendimento da equipe e dos problemas. Por isso, cabe esclarecer alguns desses pontos.

O primeiro fato se refere à contratação pontual do pivô Derek Caracter para aqueles cinco jogos citados. Teve gente falando bobagem, que contratamos por vídeo, que não deveríamos ter feio esse tipo de coisa, etc... Quanto a isso, somente um dado resume nossa resposta – sem ele, pela sua atuação no primeiro jogo da final do Mundial, não teríamos sido campeões mundiais. Não jogamos bem naquele dia e ele se destacou muito, nos levando “vivos” para a segunda partida. Só por aquele jogo, a contratação se pagou mil vezes.

O segundo se refere ao comentário maldoso que escutamos muito, de que “o Flamengo não treinou nos EUA, apenas passeou, sobretudo em Orlando”. Perdemos dois jogos de 15-20 pontos para equipes que hoje estão ou dentro ou próximos da zona de classificação dos playoffs (Phoenix e Orlando) e fomos derrotados por 40 pontos pelo Memphis, que atualmente ostenta simplesmente a terceira melhor campanha de toda a NBA e é um dos favoritos ao título. Larga diferença que, aliás, foi a mesma da final do último mundial de seleções, quando a equipe norte-americana ganhou da Sérvia por 40 pontos também.  Treinamos duro durante duas semanas e a equipe estava muito bem preparada.

O terceiro se refere à interdição do Tijuca. Primeiro, gostaria de “lembrar” que o ginásio que foi interditado foi o do nosso co-irmão Tijuca T.C. (que era o responsável pelos laudos e o tempo todo dizia que estava tudo ok, tanto para nós como para a Unilever) e não o Ginásio do Flamengo. Segundo, o Flamengo foi diligente em todo o processo, mas não podia esperar a inexplicável decisão de um juiz de não permitir jogos nem com portões fechados. Aliás, o Ministério Público chegou a sugerir, apesar de todos os laudos liberatórios entregues, que o ginásio só fosse liberado para jogos de vôlei, o que nos causa profunda estranheza. O Flamengo será julgado na Comissão Disciplinar da NBB por esses episódios e o torcedor pode ter a certeza que a resposta do clube em relação à qualquer punição será muito dura e pública. Se alguém quiser ganhar do Flamengo, que seja dentro da quadra.

Adicionalmente, tudo isso somente ocorreu porque não tínhamos outro local para jogar no Rio de Janeiro. Ficaríamos muito felizes que a nossa imprensa, tão ágil em criticar quando há um problema relativo ao Flamengo (a Unilever estava na mesma situação e não recebeu nem a metade de pressão e críticas), tivesse a mesma postura ativa de cobrança às autoridades municipais e federais para a liberação da construção da Arena do Flamengo, com 100% de recursos privados, a um ano e meio das Olimpíadas do Rio de Janeiro. De repente, é mais fácil (e dá mais “audiência”) bater no Flamengo. A gente vê isso em vários casos, como na questão dos preços dos ingressos no futebol, onde o Flamengo é sempre citado como “carrasco contra os pobres”, enquanto pelo menos cinco clubes do Brasil cobram mais caro pelos seus jogos e nunca são sequer citados.

Em quarto, reconhecemos houve realmente o episódio do atraso de salários do basquete, por conta do retardo da empresa patrocinadora em depositar (era previsto para agosto e só ocorreu em dezembro) os recursos relativos à Lei de Incentivo Estadual (ICMS). Inicialmente, que fique claro que o Flamengo assume o compromisso com os jogadores, que não têm nada a ver com os problemas do clube e seus patrocinadores. Em outras palavras, é evidente que estamos errados em atrasar salários. Porém, a dura realidade é que hoje os patrocínios diretos correspondem a apenas 45% do nosso orçamento do esporte (mesmo falando de um time campeão do mundo!), ficando os outros 55% para a lei de incentivo (que somente pode cobrir certos tipos de despesas, que excluem premiações). A burocracia para receber esses recursos é muito grande e ficamos nas mãos do Estado e das empresas. Vamos avaliar o que fazer em 2015 para que o problema não se repita e não descartamos nenhuma possibilidade, dentro do novo conceito de responsabilidade do nosso clube. O que não podemos é passar por essa situação de novo.

A torcida do Flamengo tem demonstrado uma admirável maturidade com o momento de reestruturação que o clube está passando, sobretudo com o futebol. O basquete já está em outro estágio, mas não é invencível. Um dia, “por incrível que pareça”, vamos perder um campeonato, o que faz parte do esporte. Mas o mais importante é estarmos sempre buscando o melhor para o Flamengo, lutarmos para estarmos no topo. Ninguém deixa de pagar de salários “porque quer”. Ninguém erra um arremesso livre “porque quer”. Ninguém substitui errado “porque quer”. A diretoria erra, mas os jogadores e a comissão técnica também erram. Ganhamos e perdemos juntos. Acho que está mais do que na hora da imprensa e torcida entenderem que qualquer projeto campeão se consagra com um bom trabalho dentro e fora da quadra.

Que fique claro, porém, que sempre vamos colocar o clube acima de tudo. O Flamengo foi campeão do mundo por causa desse grupo de jogadores. Mas esse grupo de jogadores foi campeão do mundo também por conta da camisa, da estrutura e da torcida do Flamengo, é bom que todos lembrem. Absolutamente ninguém, dirigente, jogador ou comissão técnica é maior que o Flamengo.

Portanto, a torcida e a imprensa devem entender que a formação e a administração de um grupo campeão do mundo, em qualquer esporte, não são tarefas simples. Temos que tomar cuidado, por um lado, com a “anestesia” pelas conquistas que tivemos. Porém, não devemos ficar “mal-acostumados”, achando que vamos ganhar sempre ou que qualquer derrota pontual é sinônimo de “tragédia ou de necessidade de mudanças drásticas”. Podem estar certos que estamos todos, diretoria, atletas e comissão técnica nos cobrando permanentemente e ninguém está feliz com esse começo de temporada na NBB. Acomodação, jamais!  Soberba, jamais! Ganhamos muita coisa, mas que já faz parte da história. Sabemos que nós todos, sem exceção, podemos produzir muito mais e isso vai ocorrer ao longo desse primeiro semestre até junho, com certeza. Confiamos plenamente no nosso grupo, que tem enorme crédito. Nossa equipe é essa que vem jogando e só será alterada caso haja alguma contusão. Aliás, nosso maior desafio é voltar a formar jogadores dentro de casa e adicionar atletas jovens à equipe adulta. Esse é o nosso principal ponto de evolução necessário e que tornará sustentável o trabalho do basquete no Flamengo.

Perder ou ganhar mais títulos, em um ano em que o Flamengo é “o time a ser batido” por todos, depende de uma série de circunstâncias, mas de uma exigência todos nós não vamos abrir mão: Que o basquete do Flamengo continue sendo o "Orgulho da Nação”, independente de vitórias ou derrotas.

Feliz 2015 para todos nós! Se não for pedir demais para Papai Noel, que o 2014 do basquete, que deixará muitas saudades, se repita! E para os blogueiros e a torcida do Flamengo, nosso muito obrigado, estamos à disposição, sempre. Lembrando que temos mais sete esportes olímpicos para colocarmos no mais alto padrão que o Flamengo merece. Já no ano que entra teremos muitas novidades. Juntos, conseguiremos!

Saudações rubro-negras,

 Alexandre Póvoa

5 comentários:

Gustavo Neves disse...

Perfeito! Esse time já cansou de dar mostras que honra a camisa que veste, não será agora, quando conquistaram o mundo pro Flamengo, que vamos abandonar os caras.
Que 2015 seja tão vencedor quanto 2014 e que os demais esportes olímpicos cresçam ainda mais!
SRN

Bcb disse...

Bem interessante essa mensagem do Póvoa.

Acho que fica claro que a direção não gostou de certas derrotas da equipe, não está nem um pouco satisfeita com a burocracia na construção do ginásio e nem com os atrasos na obtenção da grana via Lei de Incentivos.

Fica no ar até a possibilidade de um time mais modesto ano que vem, não?

E isso no ano mais vitorioso da história do basquete rubro negro rs.

Realmente o Flamengo não é para qualquer um.

Ferreira disse...

Pelo visto veremos a ''futebolização'' do basquete na próxima temporada de 2015, com um time modesto, somente pra competir. Logo num momento onde o basquete começa a dividir com o futebol o protagonismo no clube. Sinceramente, Póvoa e Vido fazem um belo trabalho, porém acho que o marketing precisa trabalhar mais. Dizem que o Bap é o ''papa'' do marketing, mas o trabalho dele até agora tem sido pifio: o sócio torcedor não alavancou, no futebol o clube precisou apelar a ''benfeitora do futebol'' Caixa Econômica pra ter um patrocinio master e no basquete, conforme vemos na carta do Póvoa, a Tim responde por mais da metade do orçamento do time, via lei de incentivo e ocupa o número (!!!) da camisa, enquanto o patrocinio master conseguido pelo Bap deve responder por uns 20% da verba... Ai vemos os times do interior paulista sem nunca terem ganho nada na vida com a camisa com 300 patrocinios e vemos o time campeão de tudo nessa situação. É óbvio que a culpa é do marketing, será que nenhuma empresa tá disposta a bancar 800 mil por mês pra expor a marca na camisa do time campeão de tudo, ainda mais próximo das olimpiadas??? Ai a solução mágica é fazer um time modesto, afastando a torcida que começava a gostar do esporte...Outra coisa,o trabalho de base não vem dando frutos, hoje na equipe principal temos como jogadores da base somente Gegê, Benite (que começaram no Fla mas se profissionalizaram mesmo em outros clubes) e o Olivinha (que se profissionalizou no Fla mas a 11 anos...), os demais só fazem figuração. Como pode o time atual campeão do LDB não revelar nenhum jogador???? Isso precisa se repensado. Mas o principal é mostrar pra diretoria que a solução não é montar time modesto, mas sim trazer a torcida pra junto do time, usar a criatividade, fazer uma cota extra no ST pro basquete, ou destinar parte da verba atual pro esporte, sei lá, mas time modesto NÃO.

Barreto disse...

Não vi nada na mensagem do Póvoa que indique que o Fla montará um time modesto para a próxima temporada. Acho que esta possibilidade é mais fruto de especulação. Confio na capacidade da dupla Vido/Póvoa que saberão explorar outras alternativas para vencer estas dificuldades. Não concordo também com a afirmação sobre o trabalho do BAP pois acho que a sua atuação tem sido muito boa. Antes do BAP não tínhamos nenhum sócio torcedor e hoje temos mais do que 50000.

Anônimo disse...

Concordo com o Barreto. Acho impressionante como as pessoas têm memória curta. Quando a diretoria atual assumiu o clube, todos riam da afirmação de que o Flamengo teria, em breve, a maior receita do país, principalmente porque o Corinthians tinha acabado de bater o recorde nacional de receitas (em razão das conquistas da libertadores e do mundial). Passados dois anos o que se vê é que o Flamengo teve a maior receita operacional (exclui as receitas com a venda de atletas) do país nos anos de 2013 e 2014. Parece que já esqueceram que o flamengo passou todo o ano de 2012 sem um patrocinador master...Quanto ao plano de ST, é preciso analisar mais do que o número de sócios. Sim, o programa de ST do Flamengo é caro, mais caro que os programas da maioria dos clubes brasileiros (se for analisado o pacote custo/benefício). No entanto, em termos de faturamento o programa do flamengo só perdia para o do Inter (não sei se continua assim, pois perdemos muitos sócios em 2014). Por fim, o patrocínio da TIM é bem maior que os outros porque é o único patrocínio "incentivado" (lei de incentivo ao esporte), que viabiliza a renúncia fiscal por parte do patrocinador. A diretoria aprendeu que lidar com patrocínios incentivados tem esse problema, a burocracia dos governos. Agora é a hora de buscar alternativas. Aos corneteiros de plantão sugiro uma rápida passada pelo you tube. Procurem por vídeos do Capitão Léo, do Cacau Cotta...enfim, a turma da oposição. Depois comparem com a nossa diretoria atual e tirem suas próprias conclusões. Não estou nem me referindo ao comando do Flamengo. Basta se fazer a seguinte pergunta: você votaria no Capitão Léo e Cia. na eleição de síndico do seu prédio? Eu não. Quando mais para o Flamengo. É hora de apoiar a diretoria e se associar ao programa de ST! Ass. Anderson.